Sobre como cobram dos médicos a santidade

2:50 da madrugada me acordam. Paciente de risco amarelo para atender. Caio da cama. Limpo a baba. A luz do banheiro me cega por 5 segundos. Escovo os dentes. Ando com as pernas rangendo no vazio da Unidade de Pronto-Atendimento. “Próximo, por favor.” — com voz soturna. Uma diarréia infecciosa sem sinais de alarme cuja dor não havia se agüentado em casa. Ouço o caso estático, olhos inchados, coluna curva. Pergunto lacônico alguns pontos. Teclo o computador no automático. “Analgesia, hidratação, reavaliação. Provavelmente infecciosa. Quando você voltar, melhor da dor, conversamos mais.” Acompanhante interrompe: “Posso perguntar?”. “Pois não”. “O senhor esteve naquela palestra sobre palhaçoterapia na faculdade.” Ele se referia a uma palestra que dei às 10h da manhã, onde dancei, cantei, interagi com os alunos. Abro um sorriso largo no rosto. “Sim.” Efeito guilhotina dela: “Completamente diferente!”.