Um textão que todos têm o direito de ler
Para qualquer usuário no mínimo semanal do Facebook é quase impossível rolar o feed de postagens em 2016 sem se deparar com alguma que seja relacionada a questões político-ideológicas. Desde as jornadas de junho de 2013, a grande massa brasileira parece estar mais politizada, ou ao menos mais interessada em política; seja por resultado da crise econômica ou a necessidade de escolher uma posição frente às eleições acirradas que enfrentamos, o perfil do brasileiro de classe média — principal usuário das mídias sociais — se mostra mais preocupado com este campo social. Neste cenário, ganham espaço discussões acerca dos movimentos sociais que antes só se configuravam nas ruas e em círculos fechados.
Hoje, o chamado ativismo de sofá está ao alcance de qualquer um. E o menos politizado usuário pode se ver contagiado pela influência dos amigos da web. Do outro lado da tendência, há aqueles que usam de toda essa interconectividade para espalhar discursos através de curtidas e compartilhamentos, tweets, entradas nos blogs e fotos no Instagram. Empodere Duas Mulheres, Cartazes e Tirinhas LGBT, Quebrando o Tabu, Revoltados Online; é longa a lista de páginas que usam razões sociais como base para as postagens. Há também, fora das mídias sociais, os domínios que se moldam em torno destas questões, sites e e-magazines que tratam especificamente destes temas através da produção de conteúdo, mas ainda se apoiando das mídias sociais, cada vez mais expandindo o alcance da mensagem.
Assim, as pautas dos movimentos em questão tornam-se protagonistas em certos aspectos da opinião pública, e esse protagonismo serve como onda de conscientização sobre a causa. Para além da realidade simples de um concreto “aparecer na tela”, estas influências tomam forma com ainda mais força em uma ordem mais profunda em cada usuário. A partir do papel de socialização que as mídias sociais têm tido, valores e pressupostos podem ser questionados e novos padrões de visão de mundo podem ser estabelecidos através de quantas curtidas tem tal postagem ou quantos tweets tal hashtag reúne. O resultado, para as pautas de melhora social, são passos em direção às mudanças através da transformação do que antes eram movimentos pontuais em uma cultura de constante debate na opinião pública.
É através do debate que pode-se identificar a natureza momentânea da opinião coletiva. O fenômeno chamado opinião pública não é um consenso definitivo da população, uma opinião da qual todos compartilham; mas uma identificação do assunto em debate. Não se diz que um tratado de paz é necessário para terminar uma guerra e esta é a opinião pública, mas que as batalhas e as opções de como terminar com elas estão em opinião pública. Ou seja, ela é a movimentação social que constantemente traz assuntos ao centro de debate enquanto rechaça outros, nunca tendo um resultado pontual opinativo, mas um processo retroalimentativo de diversos lados de opinião sobre um mesmo tópico.
Pode-se dizer que, de agosto a novembro de 2014, a posição política dos cidadãos brasileiros esteve em opinião pública; que em maio de 2016, o processo de impeachment da presidenta Dilma estava em opinião pública; que nas recentes semanas de maio e junho a luta contra a cultura do estupro está em opinião pública [referente ao caso do estupro coletivo no Rio de Janeiro — 33 homens que estupraram uma jovem inconsciente ]. Estes exemplos caracterizam-se por terem cunho político-social, o que é uma característica fundamental para assuntos em debate: que despertem discussões acerca de mudanças sociais e que cada faceta destas resulte em uma realidade parcial e diferente da outra.
No Facebook, a rede de mídia social mais utilizada no Brasil, cada página tem seus seguidores fieis e é de tendência que estas se ajustem aos interesses deste público — posição fundamental para o sucesso da página. No entanto, o contrário é ainda mais comum: todo ato de comunicação destes atores caracteriza uma influência direta na culturalização das redes sociais, da instituição de ideias e da criação de opiniões, e cada choque cria um novo debate. Os movimentos sociais — que tem como objetivo fundamental estar em opinião pública — , buscando visibilidade para efetuar as mudanças proclamadas, identificaram estes veículos como um importante canal de propagação de seus ideais. Foram aos feeds dos brasileiros e encontraram neles fortes aliados .Essa comunicação da pauta do movimento pode se dar de forma organizada ou não, através de páginas representativas ou de vozes individuais dentro do movimento.
Em 2014, Maynara Fanucci, cineasta e escritora colunista do Huffpost Brasil, criou o projeto feminista no Facebook que chamou de Empodere Duas Mulheres, o qual tinha como objetivo promover a interação entre mulheres acerca do movimento — “a cada vez que pensar em explicar feminismo para um homem, pare, não desperdice seu tempo com ele; dedique-se a empoderar outra mulher”. A página começou com postagens semanais de divulgação de material relacionado ao movimento e à sororidade entre mulheres e, com o tempo, tornou-se uma das mais compartilhadas por este público, referência entre círculos feministas.
A e-magazine Os Entendidos foi criada em 2011 por Fabrício Longo, ator e cientista social, que viu necessário um veículo para a voz LGBT e uma possibilidade de obter essa visibilidade através das redes sociais. A página d’Os Entendidos divulgava os textos publicados em uma plataforma independente e a zine ganhava mais leitores até que foi incorporada pela Revista Fórum, do portal Ig. Com colunas semanais temáticas — Dando Pinta, Enegrecendo, Lado Positivo, etc. -, a zine ganhou espaço nos nichos do público LGBT um compartilhamento de cada vez.
Fanucci e Longo obtiveram sucesso em seus projetos e conseguiram mudar a vida de pelo menos uma pessoa; para os movimentos que defendem, esse trabalho já é um ótimo trabalho. Ambos os projetos — um hospedado diretamente nas redes sociais, o outro conectado a elas — são geradores de conexões de maior magnitude que transcendem a simples disponibilização do conhecimento, mas alcançam o sentir dos usuários das redes, participam de seus cotidianos e crescem a cada curtida ou compartilhamento. Nesse cenário, cada vez que uma entrada na coluna d’Os Entendidos que aparece no feed de alguém é, em primeira instancia, informação nova que chega a um destinatário; em segunda, a percepção que um amigo considera o tema importante, uma notificação de que a causa persiste; em terceira, uma naturalização da luta, a cultura absorvendo o movimento como parte do cotidiano.
A vinda destes assuntos à opinião pública não está relacionada apenas à presença de veículos nas redes, mas, claro, também aos acontecimentos ao redor do cenário. A presença destes atores é, no entanto, importante para ajudar o público a digerir os fatos relativos. Nesse sentido, vemos como exemplo o caso do estupro coletivo de uma moça no interior do Rio de Janeiro, já em 2016: a comoção dos internautas brasileiros e o debate sobre o caso duraram semanas em postagens e mais postagens sobre a causa feminista, conscientizando muios usuários e motivando uma campanha intensa contra a cultura do estupro.
Cada texto em murais de Facebook, cada ensaio em plataformas de opinião — Medium, LiveJournal, Tumblr -, cada tweet participou de uma onda de conversas sobre o tema que contribuiu imensamente para o movimento feminista brasileiro. Não tão recente, outro acontecimento similar — a divulgação de uma pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), cujo resultado revelava que 65% dos entrevistados concordam total ou parcialmente com a frase “mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas” — também causou uma avalanche de conversas sobre o tópico, sendo protagonizadas pela campanha #EuNãoMereçoSerEstuprada, que levou mulheres de todo o Brasil a posarem com um cartaz com os dizeres, reforçando a hashtag que se posicionava no lado feminista na luta contra o machismo patriarcal.
É evidente que, apesar de serem efêmeras e não alcançarem mais de 51% da população brasileira, as redes sociais podem ter um papel importante na conscientização e colaboração para os movimentos sociais. O pejorativismo na expressão “ativismo de sofá” perde força uma vez que há mudanças no imaginário popular. As redes sociais têm um papel importante nesse contato e, por serem um dos grandes vícios tecnológicos da população brasileira atual, têm não apenas a oportunidade mas o dever de participar.
*Texto produzido para a disciplina de Comunicação na Web da graduação em Relações Públicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, no primeiro semestre de 2016