Beto por Beto: Assexual em família machista

Conheci o termo Assexual há pouco tempo, devido a uma situação desagradável que aconteceu há alguns meses. Aconteceu o aniversário da filha de um vizinho, festa de criança, onde muitos adultos foram e levaram seus filhos. Eu não tenho filhos mas levei meu sobrinho.

Nessa festa tinha uma mãe solteira, a qual eu senti atração para ficar, mas não de transar. Então os vizinhos que sabiam que eu sou solteiro me apresentaram, conversamos e dançamos um pouco. Até conversamos de sair depois, mas no final da festa quando tinha pouca gente e a filha dela estava dentro da casa, chamei para um canto e ficamos. Um pouco estranho para uma mãe, dois adultos, em uma festa de criança, mas rolou uns amassos.

Depois nos falamos por um tempo no WhatsApp, ela perguntando quando iriamos sair para aproveitar a noite. Mas eu sabendo no que iria acabar, ou o que eu teria que “obrigatoriamente” foder, fiquei enrolando. E nisso passou uns 3 meses.

Na semana passada minha mãe diz: “meu filho, os vizinhos estão se perguntando se você é gay, porque ficou de sair com uma mulher e até hoje enrola, sendo que nunca te viram namorando com ninguém. Estão chateados porque você nem quis ficar com ela”. Minha mãe me contou porque sabe que eu não busco sexo com ninguém, apesar de até hoje querer entender o que eu sou. Mas a situação com os vizinhos me deixou bravo!

Ninguém tem nada a ver com a minha vida, sou independente e ajudo financeiramente os meus pais. Tive o cuidado para ninguém nos ver ficando, disfarçamos ao máximo. E a indignação foi porque se eu tivesse exposto que ficamos, esse falatório no bairro não iria acontecer. Nunca fiquei com ninguém para provar alguma coisa para a sociedade, sempre reprovei isso. Mas procuro entender que cobram isso do homem.

Então esses dias eu estava buscando uma definição para mim. Sabia que existia a Reprodução Assexuada das plantas, então pesquisei no google “pessoas assexuadas” e “relacionamento assexuado”. Vi a correção para assexual e encontrei muita coisa sobre graças à internet, e foi assim que encontrei fóruns e blogs que falavam sobre a assexualidade.

Cresci em uma família que de um lado é extremamente machista, e do outro evangélica. Então minha criação foi machista e evangélica até a puberdade. A minha puberdade foi normal… hormônios a flor da pele. Qualquer garota que encostasse o pau subia, até mesmo não pensando nada e o vento passando pela bermuda o pau subia.

Uma ex-namorada, quando eu abraçava por trás para ficar observando alguma coisa na rua, o pau também subia. Quando eu notava isso então me afastava um pouco ou então colocava ela um pouco para o lado, mas ela dizia que estava gostando de sentir.

Perdi a minha virgindade com 17 anos. Para alguns é até tarde, mas para a minha criação que dizia que sexo só depois do casamento, eu estava fornicando. Já o outro lado da família, machista, incentivava foder cedo. Transei com algumas namoradas, mas foi muito pouco e na maioria das vezes eu broxava. Lembro uma ou outra vez que gozei por tesão mesmo, por estar excitado e querer muito meter.

Depois a minha juventude foi nas noitadas. Aprendi a dançar forró, samba de gafieira, zouk… e conheci uma porrada de mulheres, de vários tipos e níveis. Eu saía até com grupos de mulheres maduras, algumas com mais de 50 anos, que me contratavam como acompanhante de dança. Eram sempre grupo de 4 mulheres ou mais. E também sempre rolava as filhas, netas, sobrinhas, nas minhas mãos para ficar. Já tive caso com mulher 17 anos mais velha. Mesmo assim nunca busquei sexo, não me interessava transar e só pensava nisso quando libido estava muito em alta, ou por achar que esse era o meu dever como homem.

Durante a semana era malhação pesada na academia às 5:30h da manhã, depois pegava o trabalho 7:30, estudava de noite, quando não estudava era na aula de dança de salão, e o final de semana inteiro perdendo noite. Então o meu corpo não aguentou e caí no hospital.

Depois disso a minha saúde nunca mais foi a mesma, e se eu não tinha desejo de sexo… então piorou. E convivo com isso há anos sem falar com ninguém, vendo os amigos crescerem, casando, fazendo programas de casais e eu evitando sair com eles. A minha sorte é que sou emocionalmente forte, e mesmo passando por problemas pessoais eu ainda consigo suportar cargas emocionais de outras pessoas.

Às vezes eu ficava triste/pensativo, achando que iria viver sozinho. Uma amiga lésbica até propôs morarmos em parceria, para aliviar a carga da sociedade, mesmo não sentindo atração um pelo outro. Mas eu queria alguém para amar, abraçar, beijar e construir a vida como um casal “normal”.

Depois ela perguntou se eu não queria ver se era desejo por homem, então fui para uma boate GLS conhecer os rapazes. Nada para ninguém… nem senti vontade de beijar homem. Sou convicto de ser héterorromântico.

Eu não tenho aversão a sexo, apenas não busco e não será o pilar de um relacionamento daqui para a frente. Vai depender muito da condição dos dois, cumplicidade, interesse simultâneo, ou até mesmo um “vamos tentar?”. Mas não busco apenas relacionamento, porque também quero ter amigos assexuais para compartilhar momentos e programas.

Este é somente um meio relato de um assexual que vive numa família e vizinhança tão machista a ponto de se sentir pressionado e cobrado a fazer coisas que não quero e não sinto vontade de fazer. Porque ser assexual é tão complicado?

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