Porque não quero voltar ao Bradesco

São Paulo, algum dia de Agosto de 2010. Acabo de entrar de férias e estou resolvido a adquirir meu primeiro carro. Primeiro passo, procuro no WebMotors e acho o candidato perfeito: um Xsara prata com bancos de couro em perfeito estado! Maravilha, depois do contato com o vendedor resolvo ir até lá conferir in loco. Depois da viagem de três horas de ônibus em ônibus chego ao local, uma pacata rua em algum bairro da ZL, o vendedor simpático me recebe solícito e apresenta o carrinho que está realmente impecável. Depois de conversar um pouco resolvo fechar porém como falta experiência nos procedimentos resolvo ir pra casa dar uma pesquisada.

Na minha pesquisa descobri que os bancos gostam muito de financiar coisas pra você e ganhar dinheiro com os juros, mas não ficou muito claro pra mim como exatamente funcionava isso na prática. Decido então que era a hora de procurar o meu banco com o qual tenho um ótimo relacionamento e que me ofereceria as melhores opções para fechar o negócio. E lá eu fui, peguei minha bike e em 15 minutos estou no centro da cidade, deixo ela acorrentada no estacionamento do mercado e pego o primeiro ônibus intermunicipal sentido estação Armênia, desço na Tietê e pego o metro sentido Jabaquara, no Paraíso pulo pra linha verde e salto na Sumaré. Depois de caminhar 15 minutos no sol que já não estava muito ameno pela altura do meio dia chego a minha tão querida agência. A agência da minha primeira conta. Longe da minha casa mas praticamente do lado do local do meu primeiro estágio na rua Girassol.

Não gosto de entrar em bancos. Acho tenso. Por pura coincidência, claro, aquela bendita porta sempre trava quando tento de primeira. Mas com o tempo aprendi a minimizar esse aborrecimento, tento chegar sem olhar para os guardas nem por curiosidade de saber onde eles estão ou se estão olhando pra mim. Ao retirar pertences de metal dos bolsos é importante se apalpar bem pra ter certeza que não esqueci de tirar nada. Levantar brevemente a camiseta também já ajudou a porta a destravar em várias ocasiões.

Passo tranquilo pela prova e pego minha senha, pela minha mente estou seguro pois nunca tinha usado meu relacionamento de anos com o banco para contrair qualquer dívida e ao mesmo tempo ansioso para saber como aquilo ia funcionar. Chega minha vez.

- Boa tarde, tudo bem?

- Oi, tudo bem?

- Como posso ajudar?

- Eu quero comprar um carro

- Ok, posso ver seu RG?

- Claro!

Trago comigo uma pasta com vários documentos que achei que iam ser necessários. Holerites, comprovantes de escolaridade, de endereço, xerox, etc. Passo meu RG e aguardo enquanto ela digita e analisa a tela. Reparo que ela é uma gerente nova, no máximo uns 28 anos. Sotaque paulistano carregado e toda pinta daquelas garotas propaganda de intercâmbio. Não preciso nem descrever fisicamente, basta dizer que não destoaria do cenário adentrando o Mackenzie ou saindo do campus da Anhembi-Morumbi. Nem seria barrada na porta giratória de banco algum.

- Então, Alexandre como você quer fazer?

- Bom, eu queria saber das opções, como podemos fazer?

- Tá, mas você já escolheu o carro?

- Já sim, mas eu queria saber como funciona

- Me passa os documentos que a gente já vê

- Que documentos? Meus?

- Seus, os dados do carro…

- Ah, mas não tenho, eu vim aqui saber como funciona como faz…

- Mas é você mesmo que quer comprar? Que carro é?

- Ah é um Xsara

- E na loja, não financia?

- É de particular…

- Ah então pega o chassi o valor os dados direitinho daí você volta aqui

- Que dados

- Do carro?

- Ah espera aí deixa eu anotar o que precisa…

- Os dados, os dados do carro mesmo

- Tá mas, o que, chassi, placa, o que mais?

- Renavam e tudo

- Dai só voltar aqui? E depois como funciona?

- Aí a gente negocia o empréstimo

- Empréstimo? Mas pra que precisa dos dados do carro? Isso não é um financiamento?

- Isso, é um financiamento

- Mas aí vai o dinheiro pra minha conta?

- Não, vai direto pro dono

- Não entendi muito bem…

- Então, tipo, você já procurou loja, assim… é seu primeiro carro?

- Sim, meu primeiro… É que eu achei esse carro…

- Ah então, faz assim, você pega os dados e depois você volta aqui que a gente faz

- …

- Eu vou sair rapidinho posso te ajudar com mais alguma coisa?

- Não, era só isso…

Foi isso. Devolveu o RG que coloquei na pasta junto com o resto, cruzo a porta automática de volta pro sol no lombo. Não estou bem certo do que houve. Será que ela tava com preguiça de explicar? Talvez não tivesse almoçado e tava com pressa… talvez foi apenas outra coincidência… mas a verdade é que mais uma vez, e não seria a última, não tinham me tratado como um cliente normal. E fiquei na mesma incerteza incômoda de não poder cravar o por quê. Tinha até colocado uma camisa polo pra parecer menos pé rapado…

Voltei pra casa com a sensação de não ter saído do lugar. Até tentei pegar os dados do carro com o dono mas quem sai passando chassi, Renavam CPF e etc para um desconhecido? Em dado momento ele desconversou e disse que já tinha vendido o carro a um parente embora o anúncio continuasse ativo…

Ainda tentei contato com o Bradesco por telefone em busca de ajuda e até obtive mais sucesso, ficaram de retornar, mas as férias estavam acabando e eu ficaria sem tempo pra resolver isso.

Acabei comprando o carro direto de uma loja picareta.

Para economizar, me aconselharam a transferir o documento para o endereço da minha vó.

Passei acima da velocidade em dois radares da mesma avenida

As notificações não chegaram pra mim pois o endereço era da minha vo

Não pude recorrer ou transferir

Estava ainda na permissão

Perdi e tive de tirar carta de novo.

Fui autuado em 2015

Perdi a habilitação de novo pois era ainda uma permissão

Até hoje estou tirando carta porque em 2010 o Bradesco não me ajudou a comprar um carro

Não me ajudou a comprar um carro porque não acreditou que eu podia

Não acreditou que eu podia por quê?

Seria porque eu era – e ainda sou – um neguinho de Santa Isabel? Não posso dizer que foi isso, pois estaria fazendo uma vitimização, algo inconcebível em um país tão igualitário e livre de racismo como o nosso.

Sei que em 2011 encerrei minha conta lá e abri uma em outro banco

HSBC

Em 2016 o HSBC foi comprado

Pelo Bradesco