anatomia de uma banda Episódio 1: Spoon

O Idris Elba das bandas: o Spoon é um veterano confiante que transborda carisma e permanece criminalmente subestimado
Você já viu Idris Elba em ação? O cara desliza pela tela com a segurança e a naturalidade de quem faz isso desde os primeiros meses de vida intrauterina. Elba pertence a uma categoria especial de seres humanos magnéticos para quem o carisma é uma força inata e espontânea. Não adianta fingir, não adianta forçar: ou você tem esse super-poder ou você não tem.
Naturais de Austin, capital do Texas, o Spoon está em atividade desde o longínquo ano de 1993. Esse grupo é um dos principais integrantes da explosão criativa que revitalizou a música independente norte-americana na virada do século. Nesse sentido eles são primos espirituais de bandas como Modest Mouse, Bright Eyes e The Shins, outros membros do indie boom 90/00. Entretanto, diferente dos primos, o Spoon não alcançou o mesmo nível de sucesso comercial e tornou-se uma banda apenas razoavelmente popular cercada por parentes blockbusters.
Contudo, uma dedicada e expressiva base de fãs começou a seguir a banda a partir de 2002, com o lançamento de seu 4o álbum, Kill the Moonlight. Depois disso tornou-se impossível não prestar atenção neles.

Reconhecido pela crítica como um dos melhores álbuns da década passada, Kill the Moonlight é também (debativelmente), o melhor do Spoon. Esse disco contém todos os elementos que tornam essa banda singular. É um álbum minimalista e elegante que fabrica um intraduzível swag raramente encontrado no universo do rock independente. Armados apenas de um piano, uma bateria, uma guitarra e um baixo, o grupo trouxe ao mundo 12 músicas curtas e despretensiosas que parecem ter fluído sem o mínimo esforço. Simultaneamente despojado e elegante, Kill the Moonlight é uma observação sobre a vida urbana moderna. A inesquecível Small Stakes é uma maneira perfeita de abrir qualquer álbum: uma música minimalista sobre o tédio, as expectativas de sucesso e sobre se sentir feliz apenas nos fins de semana. Frases como “It feels alright friday night to sunday!” e “me and my friends sell ourselves short but feel very well” são típicos do senso de humor da banda. Outros pontos altos são as músicas The Way We Get By, uma canção resignada sobre manter um estilo de vida hedonista, estagnado e inútil (“We get high in back seats of cars/We break into mobile homes (…) We go out in stormy weather/We rarely practice discern/We make love to some weird sin/We seek out the taciturn”) e All The Pretty Girls Go The City, uma celebração da paquera, do flerte e das expectativas que antecedem uma noite na cidade. Kill the Moonlight é um bom exemplo de álbum em que nenhuma música soa redundante e em seus 34 minutos ainda podemos destacar músicas como Stay Don’t Go e Don’t Let It Get You Down.

“Every morning I’ve got a new chance”. Com essa linha o vocalista Britt Daniels abre The Two Sides of Monsieur Valentine, evidenciando o seu talento para lapidar sabedoria das frases mais simples. Essa música é uma das melhores do disco Gimme Fiction, sucessor do celebrado Kill the Moonlight. Gimme Fiction preserva o magnetismo e o senso de humor despojado da banda (pense em Chris Pratt em Guardiões da Galáxia e nas cenas com o Quicksilver nos X-Men mais recentes) e adiciona uma nova camada de sensualidade em I Turn My Camera On, uma música que transmite uma atmosfera tão sexual que faria uma sexóloga corar. Outro ponto alto do disco é a romântica I Summon You, uma balada rápida no violão que evoca a habilidade do grupo em criar músicas simples, diretas e inimitáveis.
Anos depois os texanos entrariam em uma fase mais ambiciosa e experimental nos discos Ga Ga Ga Ga Ga e Transference, distanciando-se da proposta minimalista e simplista que formava o núcleo da banda. Os pontos altos dessa fase de transição são as músicas Don’t Make Me A Target, sobre o fim de um relacionamento abusivo, e My Little Japanese Cigarette Case, um clássico exemplo do swag do Spoon.

E finalmente após um hiato de 4 anos, o Spoon surpreendeu em 2014 com They Want My Soul, o seu disco mais completo. Nessa maravilha de disco, a banda soa exatamente como os adultos de meia-idade mais descolados da terra. Simultaneamente enérgico e maduro, juvenil e experiente, They Want My Soul é uma belíssima volta da vitória para uma banda com mais de 20 anos de carreira. Esse é um álbum com níveis Idris Elba-escos de carisma. Exemplos: a bateria inimitavelmente Spoon em Rent I Pay, os tutututu em Do You, uma música que parece viver dentro de um verão recifense eterno com seus “someone get popsicles, someone do something about this heat!”). Por trás da diversão, esse álbum transmite uma mensagem de resiliência, resistência e sobre permanecer firme aos seus princípios. A música-título They Want My Soul é uma catarse emocionante sobre desviar das expectativas das pessoas sobre você e permanecer no caminho que te faz feliz (I’ve got nothing I wanna say, they’ve got nothing, nothing I want. All they want is my soul — they want my soul!). Desviar das expectativas foi algo que o Spoon fez durante toda a sua carreira e Let Me Be Mine, uma música que fala confissões como “auction off what you love, it’ll come back sometime” e “you’re gonna take another chunk of me when you go/go ahead and take another chunk of me, yeah, just go” é talvez o seu momento mais vulnerável e sensível.
Para a sorte do planeta, ambos o Spoon e o Idris Elba permanecem na ativa. Em 2017 teremos a oportunidade de ver o ator britânico estreando a adaptação do livro A Torre Negra e de conferir o trabalho mais recente dos texanos: Hot Thoughts, álbum que sai mês que vem. O primeiro single desse disco, também denominado Hot Thoughts, é um clássico instantâneo repleto da atmosfera de volúpia elegante que só o Spoon pode fazer.
Playlist o melhor do Spoon:
https://open.spotify.com/user/pedrovalenca/playlist/726Nf73CNYxYULEHpf73IE
