autobiografia

esse post está fadado a se auto-destruir. eu sinto muito pelo Iraque, pela Síria e pelo Afeganistão. Em um universo paralelo eles seriam grandes lugares para se visitar. Aleppo, por exemplo, é considerada a cidade mais antiga do planeta. Não existe nenhum outro lugar no mundo onde o homem morou por tanto tempo. É a mesma Aleppo que aparece diariamente bombardeada nos noticiários. De acordo com arqueólogos, a segunda cidade mais antiga do planeta é Damasco, capital da Síria. Insano. Eu gosto da teoria das cordas, da teoria do multiverso, do quanto o cosmo é incompreensivelmente infinito e que existe uma equação matemática que prevê que a vida como nós conhecemos só faz sentido numérico dentro de um sistema infinito de universos, sendo a maioria deles inviáveis para a vida. Eu não tenho muita certeza mas é algo nesse sentido. Que nesse universo e em nenhum outro lugar do cosmo eu e você existimos nessa forma e nesse momento, juntos. Eu gosto de pensar que em outro universo eu posso ser uma outra pessoa. Eu gosto de ler sobre política externa, eu gosto de escutar coisas em espanhol, eu gosto de estudar alemão porque me deixa bem humilde mas hoje eu faltei à aula. Eu gosto da pizza da domino’s, aquela que eles chamam de catuperoni. Eu odeio neoliberais, eu acredito que o propósito do Estado é garantir direitos e zelar pelas populações carentes. Uma vez eu e um colega de quarto ficamos bem bêbados num estacionamento de um supermercado numa quarta-feira à tarde. Eu lembrei disso hoje de manhã e sorri. Tem uma temakeria na Avenida Norte na altura da Tamarineira chamada oxentemaki. Eles têm um combo de 20 peças de sushi por 20 reais e é delicioso, é o melhor custo-benefício da cidade. Uma amiga minha me levou lá pela primeira vez. Ela tem um carro e é uma advogada que trabalha 30 horas por dia e adora o que faz. Eu não sei como ela consegue. Meus pais não nos deixaram criar cachorro quando pequenos, então tínhamos hamsters. Já gastei 300 reais em uma guitarra com amplificador que nunca toquei. Às vezes eu chamo a cachorra daqui de Akamaru. A cachorra dorme 18 horas por dia e ela é muito rancorosa. Eu adoro a cachorra. Eu me preocupo com a minha avó e comigo mesmo no dia que perdê-la. Minha avó não come nada exótico. Minha outra avó jantou comigo em um restaurante coreano no meu aniversário. Eu fiquei surpreso, eu tinha chamado sem imaginar que ela ia mas ela foi e gostou da comida. Eu odeio ervilha, azeitona e cenoura. Ouvi dizer que existem mais cursos de direto no Brasil do que em todos os países do mundo somados. Não sei se é verdade mas não ficaria surpreso. Eu tenho medo de justiça de massa, do tribunal da opinião pública, de vigilantismo, de justiça com as próprias mãos. Eu acho que empatia não é algo seletivo e que não deve funcionar só para aqueles dentro da nossa bolha ou parecidos conosco. Acho que eu seria um bom psicólogo porque sou um bom ouvinte. Também sou bem perceptivo. Eu tô assistindo Sopranos e achando excelente. Eu acho que consigo analisar todo mundo, eu sou muito presunçoso. De acordo com minha avó eu tenho uma opinião sobre tudo “que nem seu bisavô tinha”. Eu falo muito palavrão e minha avó odeia palavrão. Acredito demais na militância mas ela não está sempre certa. Ontem entreouvi uma conversa sobre sexo na qual uma mãe entrava em pânico com a ideia da filha de 20 e poucos anos transar. Isso é ridículo, o valor de alguém não deve é medido pela quantidade de parceiros sexuais que ele/a teve. Acredito que os pais devam ter uma conversa séria com os filhos sobre o sexo e as suas implicações físicas e psicológicas. Ninguém fala das consequências psicológicas que o sexo pode trazer. Ninguém fala que, além do risco biológico, existe um componente psicológico no sexo para o qual você deve estar preparado. Você precisa estar mentalmente preparado para a possibilidade real de machucar alguém ou a si mesmo. Sexo pode ser só para diversão assim como os filmes da Marvel (que eu adoro) são, mas você precisa saber o que está fazendo. Eu sou bem monogâmico, eu nunca traí. Eu tenho um sinal marrom gigante que vai do fim das costas até a mão direita. Hoje em dia não dá pra ver direito porque meu braço é cheio de pelos mas antigamente era mais escuro e estranho. Toda vez que entro em um avião eu toco na porta. Se eu pudesse escolher como morrer eu escolheria em um avião. É rápido, indolor e você desmaia pela falta de ar. Eu sou obcecado pelo anonimato, se eu morresse em um desastre eu não iria querer que ninguém falasse sobre. Eu me pergunto se algum dos meus amigos vai me chamar para ser padrinho de casamento. Eu queria ir pro Irã, a culinária é ótima e eles são conhecidos pela arquitetura e pela hospitalidade. Eles são obcecados por hospitalidade, existe uma coisa chamada tarom. E eu também gosto da aventura. E da história. Acho incrível o fato que eles são descendentes dos Persas. Procure fotos da mesquita Shah ou da Nasir-ol-Molk. É incrível. Para quem gosta de ver formas geométricas é sensacional. É um caleidoscópio. Eu gosto de menta, hortelã, esses temperos. Mostarda, cominho, maionese, orégano, erva cidreira. Eu imagino que iria adorar a Turquia porque tudo deve ser bem temperado e eu adoro a arquitetura. E a história. Minha avó também iria gostar porque ela gosta muito de colorido (a cor favorita dela é amarelo) e de mercados mas ela jamais iria porque odeia aventura. Meu pai também odeia aventura. Eu adoro aventura! A prima da minha vó já viajou para mais de 50 países, ela acabou de voltar de Israel. Eu queria ir para a Anatólia no inverno. Eu sinto pena porque o leste da Turquia está bem perigoso hoje em dia. Eu nunca me apaixonei mas adoro romance. Tenho muito medo de não achar alguém para amar. Tem um tweet que eu acho hilário “A coisa mais triste é um cara bêbado e não ter uma mulher para ligar chorando”. Isso é verdade demais, é mais triste que ter o coração partido. Quando as pessoas morrem e você sente falta delas, você está honrando elas. A dor é um escudo e um motivo de orgulho. Você deve pensar assim: “essa pessoa existiu, ela foi amada e na minha dor ela fez morada”. É claro que doi, essa foi uma pessoa real e querida, é claro que ela deixou marcas. Leve-as pra sempre no coração, a dor é prova que alguém real e importante passou pela sua vida. Tem uma música do Bright Eyes sobre morrer em um avião, acho que foi daí que tirei essa ideia. Ela fala de uma mulher num avião que senta ao lado de um homem. Ela tenta conversar mas ele não é receptivo. De repente acontece uma pane, o avião começa a cair e ela pergunta em pânico ao cara “where are we going?” e ele responde calmamente “we’re going to a party! it’s a birthday party, it’s your birthday party, happy birthday darling! we love you very very very very very much” Eu acho bonito essa imagem de acalmar um estranho em seu último momento de vida. Eu também gosto do clipe. Eu sou muito bom no vôlei — não, sério! Uma vez um amigo brigando comigo falou “você se acha muito engraçado — você não é!” e até hoje eu penso nisso com dor e não sei por que doeu tanto. Eu adoro música contemporânea. Eu não conheço música antiga. Eu acho importante falar para o seu amigo “eu estou do seu lado mas você está errado” e explicar o porquê. Via de regra eu não julgo ninguém (afinal quem sou eu?!), exceto criminosos e mesmo assim acho que devem ser julgados e punidos da forma padrão. Justiça não é vingança, eu odeio vingança. Eu odeio gente vingativa. Eu tenho medo de ladrão. E de faca. Eu não acendo fósforo. Eu tenho habilitação mas não sei dirigir. Eu não vejo filme de terror. Eu gosto da forma que a Alemanha resolveu confrontar o seu passado. Existe racismo e xenofobia mas as crianças aprendem sobre o nazismo no colégio desde cedo. Em Berlin existe um monumento ao holocausto quase do lado do portão de Brandemburgo. Que outro país honrou suas vítimas dessa maneira? Que outro país vê o seu passado negro dessa maneira? Uma vez eu bebi com um alemão estudante de Ciência Política que passou horas conversando muito preocupado e envergonhado com o ressurgimento de um movimento xenofóbico na Alemanha. Ele falava do AfD com os olhos esbugalhados e em puro pânico, enfatizando para um forasteiro (eu) que aquilo não era a Alemanha dele e que o mundo não deveria pensar isso da sua pátria querida. Quando ele foi ao banheiro seu colega engenheiro riu e pediu desculpas pelo amigo “ele se empolga muito quando fala de política” mas eu tinha adorado a conversa. Esse dia foi ótimo, bebemos um bocado. Eu adoro trem. Eu amo minha cidade, eu odeio morar aqui. Santa Catarina deve ser massa porque dá pra usar casaco e regata. Eu não gosto de usar as mãos pra comer, eu tenho frescura com limpeza. No pós-sexo eu faço uma limpeza que parece uma esterilização de hospital, é engraçado, até eu rio disso. Tem uma história meio engraçada. Eu gosto de animações japonesas e de assistir os indicados ao oscar de melhor filme estrangeiro. Esses são os melhores pra você “viajar” pros lugares. A coisa mais hipster que eu fiz na vida foi ver um filme do Cazaquistão. Mas o filme era bom e bem normal. A coisa mais pedante que eu fiz na vida foi ter lido Graça Infinita. E gostado. Eu acho meio babaca esnobar o oscar. Claro que essa premiação não representa o melhor do cinema (Spotlight eu achei bem fraco, só pra dar um exemplo) mas sempre têm indicações boas na lista. Eu me ofendo com a ideia de signo porque ela destroi toda a nossa individualidade e todo o estudo do comportamento e da psique humana, que é algo que eu adoro. Ninguém cresce, ninguém muda. Meu pai fumava bastante e a sala de tv sempre fedia, eu odeio cigarro mas fico calado. Eu penso muito sobre a ressignificação do papel de ser homem hoje em dia e agradeço que temos espaço para sermos mais sensíveis. Mas ao mesmo tempo me sinto mal por me sentir sensível. São as contradições de ser homem, esse tipo de coisa não é esperado da gente. Eu quero passear de motorhome na Nova Zelândia. Eu quero viajar pela Austrália de Sydney a Melbourne e ir de lá até Perth passando por South Australia e pelo outback. Eu sonho com o final da longa jornada olhando a praia em Perth. Eu conheci um dos meus melhores amigos 7 anos atrás bebendo em um posto de gasolina — é sério! (E eu adoro contar essa história). Eu adoro contar histórias em geral. E ouvir. Perth é terra do Tame Impala. Eu já entrei no tinder por 15 minutos e me senti tão péssimo e sem esperança que nunca mais voltei. “Aquilo é terra arrasada, nada brota” digo eu. Muitas vezes acho que já conheci todas as meninas que tinha que conhecer na vida e que agora tô fudido mesmo. Eu adoro as pessoas que eu conheci de uns 3 anos para cá mas é provável que eu nunca diga isso a elas para não parecer estranho ou carente demais. Eu visitei um museu em Zagreb chamado Museum of Broken Relationships. É incrível. Ontem eu assisti uma animação japonesa em que um menino acorda no corpo de uma menina e fica deslumbrado pegando nos peitos dela. Eu ri alto pensando “HA! eu acho que ia fazer o mesmo — eu sou muito crianção”. Eu era bom em apresentar trabalhos no colégio (no resto do ano eu não soltava um piu). Eu uso muito advérbio. Eu sou obcecado por comida e como por puro tédio. Eu tenho uma puta pança. Todos os meus tios e primos são mais altos que eu. Isso é pior do que você pensa. Pelo menos eu não consigo fazer com que não seja. Não consigo decidir o que eu mais odeio em mim mas provavelmente é o cabelo. É claro que eu não estava falando do que odeio na personalidade, personalidade é algo muito mais pessoal, eu não falaria disso. Eu odeio odiar minha aparência porque isso faz com que eu me sinta fútil, vaidoso, pequeno e infantil. Ninguém deve avaliar ninguém pela sua aparência, pelo amor de deus. Eu não gosto de me exibir. Ser invisível é um qualidade. Eu gosto dos X Men, de Scott Pilgrim, realismo mágico, de um torrent cheio de filmes. Acredito que temos essa luta interna entre querer se abrir e se preservar. De querer se relacionar com as pessoas e se proteger delas. E que aqueles mais fechados são os que mais querem se abrir. Eu queria escrever ficção científica. Uma vez eu vi um cara dizendo que queria viver sua vida como um jogo de pokémon: todo dia explorar novos lugares e conhecer pessoas novas. Isso me tocou demais porque é precisamente o que eu quero da minha vida. Tem uma música do Modest Mouse que fala de “all the people that you wanted to know and all the places that you wanted to go”. Eu acredito muito no poder do perdão e da reconciliação, afinal estamos aqui na terra por tão pouco tempo. Eu acredito na redenção. Eu não posso morrer antes de ir pro Japão. Eu quero ir pro Japão ano que vem. Eu gosto de dizer que o meu maior sonho é ser feliz mas aí minha vó diz “menino! você tem tudo!”

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