sorvete de baunilha

Por que assistir um bando de gente rica cozinhando na TV aberta pode ser uma experiência tão edificante?

Minhas técnicas de cozinha são, na melhor expressão, rústicas. Eu consigo fazer um bronwie cremoso e faço um pão pizza bonito para tentar impressionar as meninas mas qualquer coisa além disso e a minha culinária se torna “homem solteiro despreparado”. Arroz sem sal, feijão duro, macarrão com maionese e atum. É culinária de trincheiras, de guerra e de sobrevivência. Nada para se saborear muito.

Foi com grande surpresa que me peguei recentemente assistindo o Masterchef. Nunca pensei que um programa de culinária iria me inspirar, mas afirmo sem medo: inspirou.

O Masterchef, naturalmente, não é perfeito. É convencional e batido e possui todos os defeitos que se espera da TV aberta. É longo demais, fabrica dramas desnecessários, causa intrigas mesquinhas na edição e com frequência é imperdoavelmente cafona. Mas o programa, sobretudo em sua melhor versão, a amadora, sobrevive porque apesar de tudo isso existe um grande coração que pulsa.

O segredo é que, muito além de ser um show sobre culinária, esse é um programa sobre a vida. Assistimos aos participantes se dedicando de corpo e alma à realização de um sonho. Para isso eles precisam passar por uma série de percalços. Alguns são propositais, como inventar uma receita com bife e chocolate em 15 minutos, outros puramente acidentais, como ter o dedo cortado no meio de uma prova ou se deparar com um equipamento que se recusa a funcionar mesmo com reza braba.

O universo simplesmente não funciona de forma previsível e são nesses momentos que o Masterchef mais se assemelha às ironias do viver. Planos dão tremendamente errado, boas ideias se perdem em más execuções, empolgação e talento não trazem bons resultados. É confortável crer que o mundo é uma engrenagem lógica e que os esforçados e naturalmente talentosos serão recompensados, mas a dura verdade é que isso raramente acontece. Não existe prêmio para o maior merecedor. O Masterchef, assim como a fábrica do universo, é repleto de acasos, coincidências, injustiças e do dedo da Dona Sorte.

Naturalmente existem também os momentos onde absolutamente tudo dá certo. Nesses momentos o programa consegue ser involuntariamente sublime. Não há edição espalhafatosa ou mau gosto artístico da Band que estraguem uma boa história de redenção. Um dos meus momentos favoritos está na terceira temporada, onde vemos um homem crescido se desabando em lágrimas porque fez um sorvete de baunilha perfeito. É surreal mas ao mesmo tempo é a única reação possível para um momento de superação.

Ver alguém se emocionar ao ser elogiado e se emocionar junto a ele é outro trunfo: esse programa te ensina emparia. Os participantes são geralmente pessoas que abandonaram suas carreiras para dar um rumo distinto às suas vidas. Temos bombeiros, policiais, agentes de trânsito, dentistas, donas de casa, artistas, psicólogos e centenas de outros ofícios sem relação com o fogão. Assistir a essas pessoas obtendo sucesso e transformando uma paixão em um potencial emprego fala diretamente com a minha pessoa. Não são todos que acertam sua vocação na primeira oportunidade e se dar conta que o caminho profissional que você traçou está completamente equivocado é uma descoberta dolorosa.

Esses amadores mergulham no incerto da gastronomia porque escutaram sua voz interior. Para isso é preciso de intuição e autoconhecimento, além de esforço e coragem para ser julgado em algo que você não é expert. Quando um cara chora porque fez um sorvete de baunilha muito elogiado, eu choro junto com ele. Choro porque o caminho de um sonho é duro e o momento do sucesso é um instante concedido para poucos. Choro porque me encho de esperança.

Nos seus melhores momentos, o Masterchef torna-se uma experiência edificante. É irônico como a vida e humano como a gente. E, por que não, também é inspirador. No próximo ano pretendo aprender a cozinhar direito — comida de verdade e não comida de prisão. Quero fazer isso enquanto esteja realizando meu pequeno sonho de mudar de carreira. Quem sabe então eu não derrame uma lágrima por ter conseguido chegar aonde eu sempre quis.