Poeira no vento

O que aconteceria se a ladra que roubou minha carteira entendesse que nós (eu, ela, você) fazemos parte de algo muito maior? O que aconteceria se o homem que gritou barbaridades na rua, me fazendo tremer de medo enquanto eu caminhava, soubesse que ele é apenas poeira das estrelas e eu também?

Desde que saí do ensino médio, tenho dançado a Dança da Desistência dos Cursos de Graduação. Ou seja, desisti de vários cursos até que, finalmente, me encontrei nas Letras (já me encontrava nelas há muito tempo, mas é difícil aceitar que você vai ser professora em um país que parece odiar essa profissão).

Em meio à essa dança de quase quatro anos, aprendi muitas coisas que o foco nos estudos poderia ter afastado de mim. Trabalhei em diferentes lugares, conheci pessoas, entendi o que é ter um trabalho estressante, o que é fazer o que não se gosta. Mas, olhando para trás, vejo que fiz o melhor que podia. Além de aprender, enfrentei novas experiências: assalto, furto, falta de respeito, falta de amor.
“Dei meu melhor” até para quem era mal-educado, não receptivo, grosseiro, desnecessário (não falo só de trabalho). Isso é parte de quem eu sou, não consigo ser diferente.

Agora você me pergunta: qual é a importância disso?
Eu te digo que não há.

Todo esse meu desenvolvimento pessoal de início de idade adulta, todos os medos e os orgulhos, têm sido desconstruídos pelos fatos que tentarei explicar, logo abaixo.

Individualmente, não somos importantes. Nós, seres humanos, sedentos por dinheiro, aceitação, sucesso. Tudo isso não têm mínima importância. É uma construção social que define sua vida, de uma maneira que (às vezes) você não consegue enxergar mais nada.

Nós só temos alguma importância quando devolvemos ao universo a energia que ele nos deu. Quando devolvemos a quem está ao nosso lado, aquilo que as constelações, os planetas, o nosso planeta, o mar, os campos, os animais nos passam.
O que eles nos passam além de paz? Além de amor? Além de transcendência e conexão?
Eles só passam aquilo que você deveria estar devolvendo-os.

É claro que há terremotos, erupções, maremotos, tornados (assim como há desavenças, desrespeito, desamor). Nós vivemos em um planeta, e um planeta é um organismo vivo, como nós. Fazemos dela nossa moradia e somos parte dela — da antiga Gaya, atual Terra — e precisamos respeitar suas diferenças e até aquilo que, aos nossos olhos, parecem defeitos.

Mas não há defeito nenhum na terra.
Não há defeito nenhum nela, que roubou minha carteira.
Não há defeito nenhum neles, que me destrataram quando tudo que eu queria era fazer parte.

Eles são perfeitos, como as estrelas. Eles só precisam entender.
Meu cachorro, que morreu no início desse mês, entendia.
Eu estou tentando entender por inteiro.

Espero um dia viver em um mundo em que todos tenham sua importância graças à realidade de que todas as coisas são importantes.
E que a poeira no vento somos eu, você, eles, elas, nós.
A poeira no vento é o amor.

Então, por favor, inspire e expire-a.

Like what you read? Give Pâmela Allgayer a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.