Museu Parasitológico de Meguro. Foto de Jim Fischer.

Eu Quero o Parasita Cerebral!

Grey’s Anatomy, Clube da Luta e o Gosto Pelo Desafio


por Alliah

Comecei a assistir Grey’s Anatomy no mês passado. (Sim, eu sei, eu sei. Tô no atraso. Mas é que às vezes sou slowpoke mesmo para colar num seriado. Twin Peaks eu também só vi esse ano). Uma das minhas partes favoritas de Grey’s Anatomy acontece quando os personagens brigam por um paciente, um caso incomum, um diagnóstico complicado, um desafio cirúrgico. Participar da retirada daquele tumor monstruoso é o ponto alto do dia, abrir uma cabeça para cutucar os miolos de alguém é irrecusável e quando chegam duas vítimas de um acidente de trem engatados frente a frente por uma barra de ferro trespassando os dois torsos, wow—sai que esse caso é meu!

Sempre que me pego rindo desse padrão de comportamento dos personagens, lembro de uma cena no começo de Clube da Luta: Marla e Jack se descobrem viciados em grupos anônimos de apoio—reuniões para pacientes de determinadas doenças—e começam a discutir quais encontros cada um frequentaria. Marla já começa falando que quer os parasitas e Jack contesta dizendo que ela não pode ficar com os parasitas sanguíneos e os parasitas cerebrais ao mesmo tempo. “Okay, eu fico com parasitas sanguíneos e demência cerebral”, Jack diz e Marla reage com um “Eu quero isso!”. Eles acabam chegando num consenso de três doenças para cada um. Mas ainda há um dia sobrando na agenda da semana e Marla prontamente declara que quer câncer intestinal. Jack responde que também quer câncer intestinal e o atendente da loja em que eles estão só faz olhar meio apavorado pr’aquelas duas criaturas gritando aos quatro ventos que eU QUERO CÂNCER NOS INTESTINOS, É O MEU FAVORITO.

Essa cena de Clube da Luta é bem particular. Mas em Grey’s Anatomy o que guia os personagens a quase se estapearem por uma doença esquisita é a sede por evoluírem em suas carreiras e o gosto pelo desafio. Seriados médicos procedurais caminham lado a lado com seriados policiais procedurais e suas derivações. Há um ou mais casos a serem resolvidos e o que mantém o fluxo desobstruído e o ritmo acelerado é o desenvolvimento da investigação, da pesquisa, da decifração dos códigos, da montagem do quebra-cabeça.

Eu também curto um desafio. Na minha área de trabalho, o desafio reside na solução de problemas num texto ou ilustração. Como fazer aquele amontoado de linhas ou palavras funcionar? Como aproveitar o espaço em branco no canto da figura e guiar o olhar do observador pela trajetória desejada? Como estruturar a narrativa não-linear entre os pontos de vista da pirata espacial com afasia, do açougueiro de criptoanimais que perdeu os braços mecânicos e do ictiossauro antissocial? Se a analogia coubesse aqui, eu também estaria correndo pelas alas do hospital levantando a mão com entusiasmo sempre que surgisse um paciente com três cabeças, meio chifre espiralado e um par de asas de morcego saindo de cada aba da bunda.

Como leitora crítica de ficção, se aparece um caso estranho, difícil, complicado, denso, insólito, eu vou agarrar e resolver com a força de uma Olivia Pope. (É, também só comecei a assistir Scandal esse ano, não me julgue).

Só não mando matar ninguém, calma. Não me contrata para se livrar de algum crítico que fez uma resenha negativa da sua história. Vai relaxar com um episódio de Adventure’s Time ou com uma discussão sobre a cara de Thomas Pynchon e suas relações semióticas com as crateras de Encélado no Reddit que você ganha mais.

Mas precisando de alguém para dar um jeito na sua história sobre criovulcões sencientes que se envolvem numa intriga política com uma cadeia montanhosa de outro território? Pode me contratar que eu já tô abraçando o caso.


Alliah | Artista Visual & Escritor

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