Lucia Berlin é agridoce

Alexandre Alliatti
Jul 21, 2017 · 2 min read
“Manual da faxineira”, de Lucia Berlin, tem532 páginas. É da Companhia das Letras.

Terminei dia desses o “Manual da faxineira”, livro que trouxe alguma notoriedade recente a Lucia Berlin entre leitores brasileiros. Mesmo nos Estados Unidos, ela gozou de reconhecimento majoritariamente póstumo. Nascida no Alasca, em 1936, morreu em 2004 — depois de muito perambular. Morou no México, no Chile e em diferentes partes dos EUA, e isso está presente em sua obra. “Manual da faxineira” é uma seleção de contos, de ótimos contos, e listo abaixo alguns pontos que me chamaram a atenção.

  1. Empatia

Lucia Berlin não fará você sofrer com o narrador que é um jornalista-que-escreve-sobre-querer-ser-escritor-e não-conseguir-escrever-por-causa-da-pressão-de-ser-escritor-e-acabar-sendo-jornalista. Esquece. As personagens são trabalhadoras, operárias da vida real: telefonistas, faxineiras (daí o título), auxiliares hospitalares, donas de casa. E as histórias fluem até explodir em empatia. Por um motivo bem básico: em geral, são autobiográficas. Lucia Berlin levou uma vida de sobressaltos, perrengues e porralouquices — e teve que se virar para criar os filhos. Criou também literatura.

2. Doçura no amargor

Lucia Berlin é agridoce. Ela insere ternura em histórias violentas — de sangue, injustiça, morte, traição, alcoolismo. Coloca a rosa na pedra.

3. Humor sombrio

Mesmo sombria, é extremamente engraçada. Como quando Sally, à beira da morte, lamuria-se porque nunca mais poderá ver jumentos. Ou quando seu carro, abandonado sem freio na rua, vai bater em outro carro — ao que bêbados dizem ao policial que não podem prendê-la por dirigir alcoolizada, visto que ela estava alcoolizada, mas não dentro do carro.

4. Cheiros

Berlin faz descrições muito sensoriais, e apela sobretudo para cheiros. Há trechos belíssimos que atiçam o olfato, talvez a sensação mais difícil de comunicar ao leitor.

5. Quebra de ritmo

A autora domina tanto a velocidade do conto — que se permite brincar com o ritmo. Alguns textos terminam em total desaceleração, como se faltasse alguma coisa, algum clímax. É Lucia Berlin colocando a lupa em pequenezas, em sutilezas. Ela também abandona algumas pontuações para dar agonia ou tensão ou afobação ao texto.

6. Repetição

Meu único porém num livro tão encantador é certa repetição. Alguns contos se parecem — em forma e em narrativa.

Aqui temos Lucia Berlin, em inglês, lendo trechos de “Meu jóquei”, um dos contos da coletânea:

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Jornalista. No twitter: @alliatti

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