Lucia Berlin é agridoce

Terminei dia desses o “Manual da faxineira”, livro que trouxe alguma notoriedade recente a Lucia Berlin entre leitores brasileiros. Mesmo nos Estados Unidos, ela gozou de reconhecimento majoritariamente póstumo. Nascida no Alasca, em 1936, morreu em 2004 — depois de muito perambular. Morou no México, no Chile e em diferentes partes dos EUA, e isso está presente em sua obra. “Manual da faxineira” é uma seleção de contos, de ótimos contos, e listo abaixo alguns pontos que me chamaram a atenção.
- Empatia
Lucia Berlin não fará você sofrer com o narrador que é um jornalista-que-escreve-sobre-querer-ser-escritor-e não-conseguir-escrever-por-causa-da-pressão-de-ser-escritor-e-acabar-sendo-jornalista. Esquece. As personagens são trabalhadoras, operárias da vida real: telefonistas, faxineiras (daí o título), auxiliares hospitalares, donas de casa. E as histórias fluem até explodir em empatia. Por um motivo bem básico: em geral, são autobiográficas. Lucia Berlin levou uma vida de sobressaltos, perrengues e porralouquices — e teve que se virar para criar os filhos. Criou também literatura.
2. Doçura no amargor
Lucia Berlin é agridoce. Ela insere ternura em histórias violentas — de sangue, injustiça, morte, traição, alcoolismo. Coloca a rosa na pedra.
3. Humor sombrio
Mesmo sombria, é extremamente engraçada. Como quando Sally, à beira da morte, lamuria-se porque nunca mais poderá ver jumentos. Ou quando seu carro, abandonado sem freio na rua, vai bater em outro carro — ao que bêbados dizem ao policial que não podem prendê-la por dirigir alcoolizada, visto que ela estava alcoolizada, mas não dentro do carro.
4. Cheiros
Berlin faz descrições muito sensoriais, e apela sobretudo para cheiros. Há trechos belíssimos que atiçam o olfato, talvez a sensação mais difícil de comunicar ao leitor.
5. Quebra de ritmo
A autora domina tanto a velocidade do conto — que se permite brincar com o ritmo. Alguns textos terminam em total desaceleração, como se faltasse alguma coisa, algum clímax. É Lucia Berlin colocando a lupa em pequenezas, em sutilezas. Ela também abandona algumas pontuações para dar agonia ou tensão ou afobação ao texto.
6. Repetição
Meu único porém num livro tão encantador é certa repetição. Alguns contos se parecem — em forma e em narrativa.
Aqui temos Lucia Berlin, em inglês, lendo trechos de “Meu jóquei”, um dos contos da coletânea:
