O último dia seguinte

Não sei quantas horas dormi essa noite e nem lembro de como fui parar na cama. Levantei com o dia amanhecendo e senti o estômago virado pelo gosto ruim de cigarro, que não sentia há muito tempo, misturado com o de álcool amanhecido — esse que, infelizmente, tenho sentido com frequência. Sabendo que seria um dia afogado em arrependimento, angústia e depressão, juntei forças pra fazer o que estava ao meu alcance.

Era muito pouco, não resolveria nada, mas parecia a única forma de me agarrar à vida. Fui até a sala e, com culpa, sensação de fracasso e tristeza, comecei jogando a garrafa com menos de meio litro de vodca no lixo. Recolhi os copos, guardei o maço de cigarro e a caixinha de maconha de volta da mochila Dele. Joguei fora o limão, mesmo estando bom e podendo servir para um suco ou tempero porque pra mim ele tinha se tornado "sujo".

Já ficando fraca e com o estômago virado, escovei os dentes com força pra arrancar qualquer vestígio do dia anterior das minhas mucosas e entrei no banho. Deixei as lágrimas escorrerem, soltei um soluço alto, e me coloquei em posição fetal para aplacar um pouco a angústia que fazia um bolo no entre o coração e a base do estômago. A água morna escorria nas minhas costas, me fazendo carinho — aquela água sem julgamento, sem memória, e sem nenhuma outra intenção que não fosse me limpar, me aquecer, me massagear. Me sentindo louca por isso, agradeci profundamente à água e essa gratidão me fez mais forte para levantar e terminar de passar o xampú, condicionador, sabonete.

Me esforcei para ser protocolar e tomar um banho convencional, um banho que as pessoas normais tomam, sem mais lágrimas ou posição fetal. Afundei a toalha contra o rosto e me escondi ali por uns segundos: limpa, nua, cega e invisível como eu gostaria de ficar por muito tempo. Coloquei um pijama fresco — pra mim, pijama limpo e fresco tem o poder de trazer a sensação de sanidade — e tomei o estabilizador de humor, a vitamina B12 indicada para tratamento de alcoolismo, o ansiolítico e assim completei a rotina de remédios da manhã.

Mas, ao deitar, o bolo de angústia sólida voltou, dessa vez mais pra perto do coração. Então peguei o rivotril que meu médico já me sugeriu com veemência que não tomasse, e engoli rápido, como se isso ajudasse a acelerar seu efeito. Deitei de novo do lado Dele e coloquei sua mão no meu peito, onde estava o bolo. Fiz exercícios de respiração imaginando que o calor da mão Dele mais o ar, entrando e saindo, poderiam dissipar a coisa sólida. Não dormi completamente mas fiquei na cama, entre sonhos e delírios e, apesar do sofrimento presente, estava feliz por ter o calor e a companhia Dele naquele momento.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.