
A Garota Solitária no Ônibus.
Me acostumei a fingir que as pessoas não existem, me acostumei a pensar que aqueles que não são declaradamente “amigos” na minha concepção são apenas silhuetas borradas na minha visão periférica… Eles não são importantes e provavelmente o sentimento é recíproco.
A diferença está que eu sou observador demais, logo, tudo importa para mim… todos os detalhes são significativos, contudo aprendi a filtrar aquilo que atravessa meu campo de visão, é incrível como determinadas pessoas servem apenas para quebrar os pequenos encantos da vida.
Mas hoje… Bem, mas hoje… Como é que se deu esse momento mesmo? Só de pensar sinto calafrios… Hoje eu a vi pela primeira vez e ela foi capaz de quebrar o muro que entrepus entre mim e os demais, mas o quebrou suavemente, como se estivesse armada com uma marreta de rosas vermelhas.
Entrei no ônibus e (tempus) lá estava ela, suas pernas levemente tortas juntas no banco solitário do ônibus, aqueles que não dispõem de um segundo assento ao lado por uma motivação qualquer. Ela estava com uma calça preta desbotada, uma camiseta regata branca com um desenho de uma rosa, em uma mão segurava seus óculos e na outra seu celular. Senti sua delicadeza como uma bola de cristal em minhas mãos, senti o sopro de vida invadir meus pulmões. Ela estava com seus fones de ouvido enquanto fitava o lado de fora do coletivo, a franja avermelhada próximo aos olhos, então eis que ela (fugit) virou-se e me encarou… Foram 3 segundos, mas foi como se ela tivesse me puxado para a outra dimensão em que vivia e lá 3 segundos eram 6 minutos.
Quando percebi já estava sentado no meu lugar, de lá eu a observava, tão quieta, tão cheia de vida, tão preocupada apenas consigo mesmo… Que tipo de música ela estava escutando? Quem era ela? O que ela procurava lá fora?
A inquietude de sua existência disparou meu coração de modo instantâneo, logo eu que não me deixo levar pelas coisas, pelos outros, pelas palavras… Por um momento adormeci de cansaço e quando acordei ela não estava mais lá e alguém havia tomado seu lugar. Quando foi que ela desceu?
Ao olhar direto nos teus olhos vi que ela era solitária, não do tipo “por favor, venha aqui e me salve!”, mas do tipo “estou só porque eu quis assim, chegue mais perto, não tenha medo!”, como se ela estivesse no controle das coisas, no controle do seu mundo.
É muito engraçado como em meio a uma cidade cinza é possível que alguém te desperte uma nuança de cores e múltiplos sentimentos sem muito esforço.
Para onde ela foi?
Será que a verei novamente?

