Keep me warm, 2016. by @maikeborn

A Recaída (Por: Úrsula)

Domingo, 09h12.

Estou andando em círculos por entre dezenas de árvores há quase uma hora e não está adiantando, estou tentando afastar o máximo possível os meus pensamentos dela, porém não estou tendo êxito… geralmente venho olhar a natureza e buscar por momentos de clareza, mas tenho a impressão de que aqui não é o lugar apropriado.

Cada passo que eu costumava dar nessa floresta fazia com que eu raciocinasse melhor ou encontrasse a raiz dos meus problemas.

Mas hoje não.

Apenas venho aqui quando minhas opções de resgatar a sanidade se esgotam, mas tenho certeza que terei que buscar outros meios, tudo ainda está nebuloso.

Há três meses ela terminou comigo sem mais nem menos… numa manhã de sábado estávamos rindo de algo através de mensagens e no final do mesmo dia eu estava aos pedaços. É estranho olhar para trás, porque só me lembro dos bons momentos, das nossas loucuras, do toque dela.

Em um dado momento naquele fatídico sábado ela me ligou e disse:

— “Tem como você me encontrar daqui a umas duas horas? preciso falar contigo.” — Ela parecia distraída enquanto falava.

Eu apenas disse “Ok.” sem questionar muito, então combinamos um local no centro na cidade, lembro de ter ficado tensa naquele instante imaginando o pior cenário possível: O fim de tudo.

Prontamente vasculhei minha memória em busca de razões para aquela ligação repentina? Quando sou surpreendida por momentos como esse tenho a sensação de que fiz algo de errado, aprendi a não confiar em mim mesma e, à primeira vista, tenho o impulso de achar que sou a causa de vários problemas.

Como eu havia suspeitado ela queria terminar comigo e o fez sem dó nem piedade, ela não disse que estava confusa ou que precisa de um tempo, pelo contrario, ela foi bem incisiva ao apontar que estava infeliz ao meu lado e que achava que estava desperdiçando o tempo dela comigo.

Suave como uma chuva de facas.
Leve como uma bigorna que cai sobre meus ombros.

Fiquei estática, desnorteada com as palavras tão fortes e inesperadas. Quando tentei dizer algo já era tarde demais, ela colocou a mão no meu obro, me jogou um olhar de despedida e saiu andando… me senti gelada por dentro, foi como se eu estivesse dentro de um bloco de gelo, as minhas mão tremiam de tristeza e de frio.

Cheguei em casa e fui para o meu quarto, coloquei uma blusa de frio, fechei a porta e apaguei a luz. Costumo dizer que penso melhor quando estou comigo mesma no escuro, por mais estranho que pareça eu consigo me enxergar melhor na ausência de luz, meus momentos de “clareza” derivam dos meus momentos mais “escuros”.

Deitei na cama e fiquei olhando para o teto, não demorou muito para que as minhas lágrimas começassem a cair, elas contornavam belamente o meu rosto… Onde foi que eu errei?

Há três meses estou tentando entender aonde foi que eu errei… minha vida desabou e tenho a sensação de que tudo a minha volta está preto e branco como um filme antigo, o invernou chegou há alguns dias e parece que estou ficando mais gélida cada dia que passa. Não importa quantas blusas ou cachecóis eu use, o frio está dentro de mim e por hora não há como remediar isso.

Chorei tanto quanto pude e agora consigo pensar um pouco melhor sobre tudo isso, estou retomando o controle mas ainda é complicado para mim, creio que ser obrigado a viver sem alguém da noite para o dia é o pior castigo que eu poderia receber, logo eu que sou tão ligadas as minhas emoções… logo eu que acredito na bondade alheia.

Bem, estou a caminho de casa nesse momento… acho que ter saído de casa não foi uma boa ideia, até porque não gerou bons resultados e continuo com o mesmo vazio. Estar de férias do trabalho e da faculdade dificulta ainda mais o processo de esquecer tudo isso, estou cansada dessa fase. Andei até um ponto de ônibus e por sorte consegui embarcar rapidamente, então sentei perto da janela e fiquei vendo as coisas lá fora.

O que eu mais detesto é não me lembrar de como eu me sentia e me sustentava emocionalmente antes de conhecê-la… o mais longe que consigo ir é até o primeiro dia que a vi, me recordo de estar pedindo um drink no bar de uma balada e de repente senti que duas pessoas passavam por trás de mim, e então eu escutei a risada mais deliciosa de todos os tempos, ao virar dei de cara com ela.

Fiquei hipnotizada, ela me convidou para dançar e eu peguei meu drink e a segui, ela experimentou a minha bebida e minutos depois eu estava provando o beijo mais transcendental de todos.

No vimos muitas vezes depois desse dia e por fim a Lara me pediu em namoro alguns meses depois. Tudo sempre pareceu tão bem entre nós, mas acho que eu estava errada… como sempre.

Quando olho para o mundo passando lá fora me pergunto se alguém está se sentido como eu, mas geralmente acredito que cada pessoa carrega seu próprio caos e seria covardia demais querer que alguém se sinta como eu, entendo que existem problemas piores por aí, mas ser compreendida é algo que ainda me parece distante, improvável.

Desembarquei do ônibus e caminhei em direção a minha casa, o sol estava se pondo e a temperatura estava diminuindo cada vez mais. Ao chegar em casa fui direto para a cozinha beber um pouco de água, na volta sentei no sofá e peguei meu celular, normalmente o deixo em casa porque não gosto de ser interrompida quando estou tentando fugir de tudo. Enquanto eu respondia meus amigos acabei abrindo por acidente a conversa com a Lara, não tive coragem de excluir o histórico por isso ainda estava lá.

Notei que ela estava online, mas não tive coragem de mandar nenhuma mensagem. Eu gostaria tanto que ela me mandasse um “Oi…”, tenho tanto a dizer.

Sinto uma espécie de guerra acontecendo dentro de mim, quero enviar uma mensagem para ela dizendo o que sinto, quero encontrar respostas para essas perguntas que rodeiam minha cabeça.

Sinto que nada disso vale a pena e que sou melhor do que toda essa situação… e de fato sou.

Mas eu preciso de paz e creio que essa seja a prioridade, fiquei olhando para a tela do aparelho durante vários minutos, eu começava a escrever umas palavras, mas depois apagava, fiz isso seis vezes, tudo que eu escrevia parecia supérfluo e fútil.

Por fim decidi ligar para ela pois me parecia mais apropriado. O arrependimento já me consumia enquanto eu digitava o número dela, mas de repente o meu celular parou e começou a vibrar indicando que uma Lara estava me ligando.

Perdi o chão e meu coração estava batendo tão forte que eu o sentia na minha garanta. O que devo fazer? Será essa minha oportunidade? Como ela soube? Não seria melhor desligar?

Por mais que ela não merecesse atenção eu precisava resolver esse quebra-cabeça caótico que se tornou a minha vida, então resolvi atender.

Já estou no fundo do poço, emocionalmente arrasada… não há como piorar.

Pelo menos é o que eu espero.

And it’s all fun and games ‘till somebody falls in love, But you already bought a ticket and there is no turning back now. — Melanie Martinez
Like what you read? Give Danilo H. a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.