O Começo de uma Bela Jornada

A minha infância foi uma infância, pra muita gente nos dias de hoje, condenada, porque os menores não devem trabalhar. Mas eu, por absoluta necessidade, por ter sido de uma família com tradição de rico e quebrada, fui trabalhar aos 9 anos de idade.

Aos 9 anos e meio de idade, eu era aluno do professor Sebastião Campos, numa escola pública, para prestar o que se fazia à época: o exame de admissão. E precisava trabalhar, porque não havia dinheiro para comprar a farda. Nem a farda cáqui do Ginásio Estadual da Bahia. Felizmente eu fui trabalhar, e meu tio, que era ligado ao jornal, me levou para as oficinas do jornal A Tarde. E fui ser ajudante de mecânico de linotipo — e eu não sabia nada, mas aprendi naquele momento.

Muita gente hoje vai perguntar: mas que diabo é linotipo? Porque a linotipo é uma coisa que já desapareceu há algum tempo. A linotipo é uma máquina inventada por um cavalheiro chamado Mergenthaler, que transformava as letras de um teclado em moldes de chumbo que imprimiam umas folhas de papelão que se chamavam flans. O trabalho numa linotipo era com uma temperatura média de 320° ao seu redor e uma quantidade de antimônio muito grande. Esse garoto de 9 anos e meio ouviu o conselho da mãe, e ao invés de usar o dinheiro que recebia para comprar leite -que era o antitóxico- e gastar em outras coisas, ele só tomava leite. Então eu nunca tive nenhuma intoxicação.

A partir da linotipo, fui ser paginador, que é outra posição bastante difícil, em que você aprende a ler ao contrário e de cabeça para baixo. E isso me valeu muito, porque mais tarde, como repórter, eu podia ler os papéis que estavam nas mesas das pessoas que eu entrevistava e sabia as anotações feitas.

Ainda garoto, no jornal A Tarde, mudei de posição porque tive a oportunidade de fazer uma das piores coisas dentro de um jornal, que é a cobertura de crimes, a reportagem policial. Com quase 12 anos, me acostumei a ver pessoas acidentadas em pronto-socorro, e a considerar as pessoas, no meu linguajar jornalístico, como ‘bonecos’ — porque o secretário de redação sempre pedia: “não esquece de me arranjar o boneco”, ou seja, a fotografia do morto.

Daí, passei para o esporte.

E aí começa toda uma nova história…

Linotipo usada nos jornais
  • Esta história é parte de depoimento de José de Almeida Castro para a Pró-TV/Museu da Televisão Brasileira concedido em 16 de março de 2000.