Obrigado, Camila.

Era inicio da manhã, pelo menos para mim. Acordar às sete sempre foi uma tarefa difícil, nunca me acostumei em acordar cedo, embora fizera isso praticamente a vida inteira. Não que eu pudesse dizer que vinte e oito anos era uma vida inteira, mas naquela época para mim era. Afinal de contas é a minha perspectiva da historia.

Agosto, sexta-feira, dia 13, levantei da cama antes do despertador tocar. Claro que acordei antes, a janela do quarto estava aberta, pois o dia estava muito quente. Da cama eu ouvia o barulho de buzinas, os carros andando lentamente por causa do transito e um ou dois gritos de motoristas irritados por conta disso. Que cidade horrível, pensei. Era apenas o começo do dia, mas as pessoas já estavam extremamente irritadas. Eu também estava irritado.

Minha irritação era causada por dois motivos. Primeiro, eu não gosto do calor e o clima sempre pareceu ter uma influencia muito grande sobre o meu humor, até demais. Segundo, eu acordei uma hora antes do despertador tocar e na noite passada eu tivera dificuldades para dormir. Nada no mundo tem a capacidade de me destruir tanto quanto uma noite mal dormida. Levantei da cama depois de muito tempo, pensava em varias desculpas para não ter que ir trabalhar, mas levantei. Fui tomar banho e continuei pensado se era um daqueles dias em que eu nem deveria sair de casa. Achei melhor sair, trabalhar em casa naquele dia não seria uma boa ideia de qualquer maneira.

Sai de casa atrasado após um gole de café que eu havia esquecido de adoçar, droga. Já estava virando um costume estar sempre atrasado, logo eu que sempre odiei atrasos, não conseguia entender o motivo de eu estar me tornando uma daquelas pessoas que não honram seus compromissos. Talvez fosse um reflexo dos últimos relacionamentos, onde meus atrasos eram calculados para evitar esperas. Odeio esperar.

Aquele dia eu tive a impressão de que o tempo estava passando muito devagar. Também pudera, minha vida estava resumida em esperar ansiosamente o final de semana, onde eu tinha uma ilusão de que seriam os dias que eu precisava pra viver minha vida de verdade. Espera ai, “viver de verdade?”. Embora não estivesse satisfeito com o meu emprego esse não era o motivo real daquele pensamento. A pergunta que surgiu na minha cabeça naquele momento me fez ficar apavorado. O que eu estava fazendo da minha vida? Que tipo de pensamento era aquele?

No caminho do trabalho eu tentei responder aquela pergunta, mas minha irritação não deixava eu pensar em qualquer resposta que fosse no minimo reconfortante, algo que me faria terminar o dia sem tomar um daqueles remédios. “Remédios?”. Verdade, eu estava ainda mais perdido sobre o rumo que minha vida tomaria. Outras varias perguntas se passaram na minha cabeça e em uma tentativa falha tentei bloquear a forma como o meu cérebro questionava minha humilde existência. Obviamente eu não poderia fazer aquilo parar, eu precisava de respostas. Essa era a unica maneira de conseguir paz naquele dia e em todos os outros dias da minha vida, certamente.

Enquanto andava na rua até o trabalho avistei caminhando em minha direção uma moça com um lindo sorriso no rosto. Ela sorria para mim, com toda certeza. Durante alguns milésimos de segundos eu pensei que era alguém que eu conhecia, tentei lembrar o nome, não consegui. Tirei os fones de ouvido para retribuir aquele “Oi” que mais parecia uma canção do que um cumprimento feito a um desconhecido. A voz dela era tão calma, gostosa de se ouvir, no seu rosto havia uma serenidade digna de dar inveja para qualquer um. Ela se vestia elegantemente, ainda que de uma forma confortável. Definitivamente ela era uma daquelas mulheres que presavam pelo conforto mais que pela aparência, o que a deixava ainda mais interessante.

-Meu nome é Camila, tudo bem?

- Olá Camila, meu nome é Ricardo. Acho que esta tudo bem sim.

Ao responder sua pergunta me senti intimidado pela forma como ela falava, a sonoridade das palavras saindo de sua boca não eram as mesmas na minha voz. Também percebi que eu estava lutando contra uma lágrima que ensaiava deslizar dos meus olhos para o rosto, ele estava vermelho e percebi isso ao sentir um calor em minha face que não tinha qualquer ligação com a temperatura daquele dia, mas não consegui constatar se a vermelhidão no meu rosto extremamente branco era causada pela timidez que agora me consumia ou pelos pensamentos que eu estava tendo antes de encontra-lá.

-Você acha que esta tudo bem ou esta tudo bem de fato?

-Na verdade não me sinto muito bem essa manhã.

-Eu percebi isso enquanto caminhava em sua direção, por isso achei melhor perguntar.

Que tipo de pessoa anda na rua analisando o comportamento de estranhos? Pensei que talvez a minha cara estivesse me entregando, então todo mundo sabia que eu estava a beira de um surto naquele momento? Foi então que Camila voltou a falar, fiquei feliz ao perceber que foi sua voz que me fez sair daquela especie de transe.

-Fica tranquilo, ninguém percebeu que você esta assim agora.

Como ela podia dizer isso, será que eu havia pensado em voz alta? Ela continuo falando:

-Sei que ser abordado na rua por uma desconhecida é uma coisa bem desagradável, mas eu tinha que vir falar com você.

-Imagina, isso não é nada desagradável, pelo contrario.

Embora eu sempre tivesse achado que ser abordado na rua fosse algo ruim não conseguia achar naquele momento uma unica explicação para ter gostado tanto de ter sido abordado por aquela mulher. Ela sorriu e continuou a falar.

-Você não precisa de todas as respostas agora.

Eu havia me tornado um livro aberto? Como ela podia continuar falando daquela forma, era como se pudesse ler minha mente. Sera?
Ela tocou gentilmente no meu ombro e voltou a falar novamente.

-As pessoas passam boa parte de suas vidas achando que precisam de respostas para viver. Mas você ainda não percebeu né?

-O que eu ainda não percebi? (Minha voz saiu mais ríspida do que eu imaginava, fiquei com medo de assusta-lá, mas ela pareceu não se importar).

-Esse é o motivo de estar vivo. Ninguém precisa projetar o futuro todo para ser feliz.

-Desculpe, eu não consigo entender ainda.

-Veja bem, você vai passar a vida toda planejando fazer algo no futuro, dar um rumo na sua vida, mas enquanto você se preocupa demais o tempo esta passando. Mesmo quando algo que planejou acontece, você continua planejando novas coisas, dando menos importância para o agora. Ninguém consegue ser feliz achando que lhe falta algo. Esse é você, com todas as falhas e planos frustrados. Uma boa vida é aquela em que vivemos especialmente para responder as perguntas sobre nós mesmos. Buscar conhecer a si mesmo é uma ótima maneira de passar a vida. Afinal de contas, o que mais poderia ser importante em nossas breves vidas se não conhecermos a nós mesmos?

Eu quase não conseguia respirar quando ela acabou de falar. Naquele momento eu tentava assimilar tudo que ela havia dito. Suas palavras me tocaram de uma forma unica. Era como se aquela desconhecida tivesse vivido muitos anos para ter esse tipo de conhecimento. Analisei seu rosto buscando uma idade, ela parecia ser mais jovem que eu, mas como ela podia dizer aquilo? Me senti ainda mais intimidado, ainda mais imaturo.

-Você é real? (Perguntei, me sentindo uma criança em manhã de natal ao ver seu presente embaixo da arvore).

-Agora sou eu que não te entendo.

Ela respondeu com aquele sorriso que com certeza era o mais lindo que eu já havia visto.

-Você não me entenderia agora. Mas você acabou de fazer algo muito bom por mim. É o tipo de coisa que eu jamais poderia retribuir. (Percebi que eu estava sorrindo ao dizer isso, embora aquela lagrima estivesse deslizando sobre meu rosto agora).

Era verdade, eu nunca poderia retribuir aquilo. Camila me deu muito mais que atenção, ela me deu conforto, paz, me transmitiu sabedoria. Por que eu nunca havia pensado de forma tão clara quanto ela, parecia a coisa mais obvia do mundo.
Eu não precisava dar um rumo na minha vida, muito menos planejar cada detalhe dela, eu precisava viver, eu precisava me conhecer e naquele instante eu percebi que precisava dela. Como eu podia precisar de uma pessoa que havia acabado de conhecer? Aquilo parecia absurdo, mas antes de tentar achar uma explicação para isso uma voz na minha cabeça dizia que eu não precisava de explicações, eu nunca precisei delas de fato. Eu precisava ter Camila em minha vida, ela seria uma amiga, uma namorada, uma esposa, não importava qual seria, eu apenas precisava estar perto dela. E foi naquele momento que eu percebi que minha vida só não teria sentido se aquela mulher não participasse dela.

Enquanto pensava em algo para falar e preencher a vazio que viria naquele dialogo, Camila se aproximou um pouco mais e me deu um abraço gentil, como se tentasse dizer “Vai ficar tudo bem, não se preocupe”.

Agora com 88 anos e no meu leito de morte, vendo um filme inteiro da minha vida passando rapidamente pelos meus olhos, percebo que aquele foi o dia mais importante da minha vida. Aquele foi o dia em que eu comecei a viver de fato. Fiquei feliz em poder sentir a mão de Camila apertando a minha, ainda mais feliz ao ver nossos filhos em volta da minha cama. Fiz um ultimo esforço para agradecer Camila por tudo que havia acontecido em minha vida.

-Camila?

-Sim, meu amor?

Eu ainda não havia superado a forma como ela falava, ainda mais quando sua voz era carregada de tanto sentimento ao me chamar de meu amor.

-Quero agradece-la. Eu sou muito grato pela vida maravilhosa que tive ao seu lado. Sou muito grato pelos filhos que me deu e por todas as conquistas que tivemos ao longo dos anos. Eu sou um homem de sorte, encontrei a pessoa mais maravilhosa desse mundo, alguém que me ensinou a viver, amar e conhecer mim mesmo.
Amo todas as imperfeições, minhas, suas, nossas. Amo cada momento da minha vida, pois você esteve presente em todos eles. Eu amo você tanto quanto amo a mim mesmo, pois você me ensinou que para amar o outro é preciso amar a si mesmo. Sou muito grato por você ter me ensinado a me amar, a te amar, amar os nossos filhos, amar minha vida, nossa vida. Eu sou o homem mais feliz do mundo, não podia ser diferente tendo você ao meu lado. Obrigado por cuidar de mim, por cuidar de nós. Obrigado por existir.
Gostaria de passar mais alguns anos ao seu lado, mas parece que já não é possível. Fico feliz em poder te ver nesse meu ultimo momento de vida. Você é e sempre sera a razão do meu viver. Eu te amo!

Percebi que Camila estava chorando, mas ao mesmo tempo havia aquele sorriso em seu rosto. Eu não podia desejar uma maneira melhor de morrer se não ver pela ultima vez aquele lindo sorriso.

Obrigado, Camila.

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