Entre os tons de cinza

Hoje, nessa manhã de um domingo qualquer, senti vontade de escrever sobre algo que venho pensando muito a respeito e que tem me incomodado bastante, e que seria, de certa forma, um desabafo. Um desabafo sobre essa nova (nem tão nova assim) onda do binarismo (político ou de qualquer outra coisa que seja). Ou você é “A” ou você é “B”. O que, de certa forma, é uma injustiça.

E é algo que venho enxergando na posição e declarações políticas das pessoas, principalmente dentro de movimentos dos quais me considero como fazendo parte, de esquerda e também feminista, porém, venho refletindo sobre alguns comportamentos.

E meu texto pode soar “reacionário”, “linha auxiliar da direita” etc, e isso é justamente uma das coisas a qual critico e que me irrita profundamente: você discordar de qualquer coisa que seja, dentro de algum movimento, já é taxado de inúmeros nomes e já é “expulso” dele. Tolerância zero para quem ousa pensar fora dessa caixinha, que pra mim, (no caso da chamada esquerda brasileira ou do politicamente correto) já está se tornando um novo senso comum, um novo padrãozinho todo normatizado, com regras e ai de quem não segui-las à risco.

Pra mim, esse é o ruim de seguir e acreditar qualquer ideologia: o fanatismo; quando você já não tolera nada que seja o contrário daquilo que você acredita e age com arrogância e prepotência para quem, muitas das vezes, não teve a mesma oportunidade de estudo que você. Ou que, mesmo que tenha tido, pense diferente de você.

Todos nós somos seres errantes, erramos e vamos errar até o dia de nossa morte. Então, por que vejo tanta cobrança do outro ser uma pessoa perfeita (aquela que se encaixa dentro de seus ideais, padrão de gente boa, sem nenhuma contradição, que é totalmente justa e sensata) se, muitas das vezes, nós já cometemos tais erros e ainda cometemos outros? Como se o nosso erro fosse sempre passível de perdão, porque, veja bem, nós nos compreendemos. E por que é tão difícil ter essa mesma empatia pelo outro, tentar enxergá-lo e compreendê-lo? E o mais difícil ainda: aceitá-lo?

Fazendo essas críticas, logo vem a cabeça o “pessoal de direita”, conservador, preconceituoso, evangélico, que julgamos ser antiquados, retrógrados e fanáticos religiosos, não é? Sim, eu vejo bastante disso também, não estou negando isso. Mas também estou vendo isso no outro lado. Um radicalismo nos que se dizem justos, sensatos e que só querem a paz mundial, e que sempre criticaram tanto esse fanatismo e intolerância, mas que agora parecem praticar a mesma coisa. Só muda a ideologia. Ué?

O que vejo na maioria das pessoas que se dizem de esquerda nesse país — tudo isso dentro do que vejo na minha própria “bolha”, a qual pertenço, vivo ou apenas observo — é que são pessoas que possuem acesso a algo que muitas pessoas não têm, e que explica muito bem o posicionamento das pessoas frente à vida (por exemplo, é muito fácil você ser um revolucionário, se preocupar em fazer justiça social, enquanto lê os textos acadêmicos disponíveis na sua universidade, no conforto de somente ler as “barbáries” praticadas contra essas pessoas “vítimas” do sistema, enquanto essas “vítimas” estão sendo exploradas, têm uma vida bastante difícil e complicada para poder dar conta — ou até mesmo NÃO, levando a vida de uma forma até mesmo melhor que a dessa “burguesia” — e que não possui acesso a essas informações e que, mesmo que tenha, não é obrigada a concordar com tudo que você diz e “tenta ensinar a ela”.) E é aí onde encontro um erro e que me incomoda muito.

Essa necessidade de “educar” o outro para aquilo que você acredita ser a melhor maneira de se viver no mundo em que vivemos. É óbvio que, conforme adquirimos uma crença em algo, tentamos, direta ou indiretamente, convencer o outro a acreditar naquilo também, pois acreditamos que ele também se beneficiará disso — isso pensando em alguém com boas intenções -, mas que hoje vejo muito uma forma prepotente e arrogante de se mostrar inteligente, bem educado e que sabe mais que todos os outros que são ou estão de fora do meio universitário e acadêmico. O meio no qual eu também me incluo e, confesso, já me vi numa posição de raiva e intolerância, tentando impor as coisas nas quais acreditava, e achando um absurdo quem se negasse a segui-las, pois para mim, eram tão óbvias e que qualquer pessoa sensata e de bem iria concordar comigo; as más, no entanto, refutariam. E é exatamente isso que tenho observado e que me deixa incomodada.

A falta de compreensão causa muito ódio e intolerância. Do alto do seu palanque, com um currículo impecável, uma graduação em andamento, vários textos acadêmicos lidos e refutados, trabalhos e observações feitas, há muita gente sem acesso às mesmas coisas que você teve, e que podem e devem exercer o seu direito de pensar diferente de você. Ou, mesmo que tenha acesso a tudo isso, ter o direito de também discordar — isso desde que não vire discursos absurdos e repletos de ódio, óbvio que sou contra esses posicionamentos extremistas e não acho que sejam liberdade de expressão. Mas, será que combater ódio com mais ódio resolve alguma coisa?

Enfim, a reflexão e indagação que faço é essa: será que não estamos querendo destruir um “exército padrãozinho” criando um outro? Por que sinto que tudo o que está vindo para mim é como uma obrigação para eu só seguir e aceitar, sem poder discordar e refutar isso? Não tenho sentido mais essa liberdade de ter minhas próprias ideias e opiniões porque, caso discorde de algo dentro de um movimento, estou me desvencilhando dele e servindo de linha auxiliar para aquele outro que odiamos? Será que tudo na vida é mesmo preto ou branco, ou será que, entre essas duas cores, não existem diversos tons de cinza?

Será que podemos ser uma mescla de cores e não uma só? Podemos (pelo menos eu acredito).