Meu trauma.
Bom, no único post que tenho nesse site, com a exceção desse, falei que eu tenho trauma de vomitar. Eu disse que postaria explicando o porquê desse trauma. Pois bem, aqui estamos.
É o seguinte: Antes de começar esse post de verdade, preciso reforçar a ideia de que eu ODEIO COM TODA A MINHA FORÇA E VONTADE DE VIVER qualquer tipo de dentista. A história que eu vou contar vai explicar.
O ano era 2005. Eu tinha 10 anos (Pra ver como é ruim qualquer tipo de trauma, é pro resto da vida. (Hoje tenho 21 e ainda tenho raiva desse episódio)). Precisava colocar aparelho dentário, pois minha arcada estava tão estranha quanto a do Predador. Sério. Fui numa dentista, ela pediu para eu fazer um exame para fazer o “molde” (Até hoje odeio essa palavra. A história vai explicar (De novo)), e prontamente meus pais arrumaram uma clínica para o tal “exame”. Beleza. Chegando lá, eu, com minha babaca mente de criança idiota, falei pro meu pai que queria entrar sozinho, pois achava que não iria dar nada de errado. Ledo engano. Entrei, fiz umas radiografias, vesti tipo uma túnica anti-radiação lá, estilo Stranger Things, pra essa radiografia, e chegou a hora do molde. (UPDATE: Senti um arrepio quando ia escrever essa parte) Pra quem não usa aparelhos ou nunca teve o azar de passar por qualquer dentista, molde é tipo aquelas paradas que os lutadores de MMA colocam na boca pra lutar só que cheio de uma gosma que parece chiclete, tem gosto de chiclete, mas que foi feito no Inferno. Essa parada, que parece aquilo que os lutadores usam, vai até aquela paradinha que fica na sua boca que todo mundo chama erroneamente de “campainha”, mas que se chama úvula (Procurei no Google, sou honesto). E, infelizmente, a gosma que parece chiclete mas que, na verdade, é o Inferno na forma de gosma, também. Ou seja, a ânsia de vômito, pelo menos para mim, é mais do que inevitável. Sabe aquilo que as pessoas fazem quando vão vomitar (Desculpa tocar nesse assunto, mas é pra contextualizar), de colocar os dedos na garganta pra forçar o líquido no estômago a sair? Então, esse “molde” faz essa simulação.
O filho da puta do dentista me colocou DEITADO na cadeira, colocou o molde e automaticamente me sufoquei. Não, não estou exagerando. Me sufoquei, e me desesperei, óbvio, levantando os braços, tentando afastar as máquinas da morte que aquele médico chama de mãos de mim, mas ele ficava me dizendo:
“Fica quieto que eu só vou tirar esse molde quando acabar”. E falava de forma absurdamente agressiva, até para um médico.
Se esse maluco soubesse que ele acabou com a minha infância, se ele soubesse…
Por que ele acabou com minha infância? Porque a partir daí eu percebi que ficava muito mais acuado no canto, não conseguia comer com medo de passar mal, achando, na minha cabeça de criança, que tudo que aconteceria, eu teria a mesma reação de quando passei por essa situação do molde, conseguem me entender? É um lance meio Freudiano. Não sei explicar, mas Freud sim:
“Os instintos não se deixam reprimir; e seria pueril imaginar que, no caso de serem reprimidos, só por isso deixassem de existir. A única coisa que se pode conseguir é fazê-los retroceder do plano do consciente para o do inconsciente; mas em tal caso eles se acumulam, perigosamente deformados, no fundo do espírito, e com sua constante fermentação dão origem a inquietações nervosas, perturbações e doenças.” Freud, S.
Logo a partir disso, depois de ter dado bosta, meu pai entrou no consultório, ouvindo meus gritos, e viu que eu tava desesperado, tentando tirar aquele molde da boca a todo custo. Ficou desesperado junto comigo, mas junto do desespero veio a raiva. E eu vi meu pai xingando aquele médico filho de uma prostituta barata de 70 anos no meio do consultório médico. Porque assim, se ele tivesse me colocado sentado na cadeira e tivesse feito todo procedimento, beleza, toda reclamação seria minha. Mas ao menos tente COMER DEITADO NUMA CADEIRA. Completamente deitado, sem se apoiar em nada. Com a cabeça no travesseiro. Se você não se engasgar, meus parabéns, porque é semi-impossível. (A partir daqui têm muitos palavrões. Se você é muito sensível a isso, me desculpe, aqui quem tá escrevendo é o Pedro do fututo após ter escrito esse texto, o Pedro do passado se exaltou um pouco, mas desculpa mesmo) Quem é o viado que estuda anos e anos numa merda de uma faculdade de odontologia e coloca o FILHA DA PUTA do paciente DEITADO para fazer um molde, que cobre completamente o céu da boca e a úvula? Esse médico tem acefalia? Porra.
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Depois de tudo isso ter acontecido, mesmo com o resultado desgraçado que havia acabado de acontecer, eu tive que fazer um procedimento para colocar um aparelho que era (Lembrando, eu tinha 10 anos. Esse aparelho mete medo em mim hoje, com 21, imagina com 10) tipo uma chapa de ferro que passava entre a parte superior do meu céu da boca. Cara, eu preferiria todo dia até o último da minha vida tomar vários pontapés na minha região fálica do que, NA ÉPOCA, passar por isso. Mas beleza, aceitei colocar.
A dentista, com toda sua experiência de não deixar os pacientes nervosos, disse que ia ficar tudo bem, que era rápido e fácil de se colocar.
AAAAAAAAAAAAAH, beleza. Eu vou fingir que não é fácil pra ela dizer isso. É tipo um cara que é serial killer dizer pra uma de suas vítimas que tudo vai ficar bem, e que ele não vai sentir dor. É quase a mesma comparação. Com a diferença de que o serial killer não se esconde atrás de um diploma para deixar as pessoas mal. O dentista sim.
Eu juro POR TUDO QUE É MAIS SAGRADO, lembrando que eu sou religioso, não mentiria sobre o que é sagrado se não fosse, que eu quase tive uma parada cardíaca naquela sala. Eu não conseguia ficar em pé, devido à experiência que passei de a médica ter colocado o aparelho, também deitado, e eu sufocar, do MESMO JEITO que com o outro dentista. EU LITERALMENTE NÃO CONSEGUIA FICAR EM PÉ. Não era como um desmaio onde eu caía inconsciente. Eu literalmente, consciente de tudo o que estava acontecendo, tentava ficar em pé e minha perna ficava bamba e caía. Só pra vocês terem uma noção, eu lembro até hoje de estar lá em baixo do prédio onde era a clínica, olhando eu no reflexo, nos braços do meu pai, me carregando por eu NÃO CONSEGUIR ANDAR. Até meio que chorei escrevendo essa parte aqui. É uma cena muito forte que vem à minha mente quando eu percebo que sou ansioso, tenho crises de ansiedade generalizada, onde fico no meu quarto, completamente ofegante sem nenhum motivo, tremendo como se visse algo que me apavorasse, sendo que não vi, e mesmo assim, tendo que PARECER forte, porque é o que a droga da sociedade e as pessoas que estão à volta empregam, às vezes indiretamente.
Lembro que depois disso meu rendimento escolar, que antes era muto bom, passou a ser uma porcaria, e nunca mais foi o mesmo. Meu relacionamento com as pessoas que antes era aceitável, conseguia conviver com as pessoas até que bem, passou a ser uma porcaria, e não é nem minha culpa, tampouco dos outros. Quer dizer, é um pouco dos outros sim, mas enfim. Até hoje me auto-deprecio constantemente, me xingando a todo momento por achar que sou um imprestável, por todas as vezes em que tenho que enfrentar algo importante, eu fazer igual ao dia do dentista, e “perder os movimentos, metaforicamente falando”, recuar, me isolar, desistir de fazer, sabe?
Isso é só 1% do que me faz tão intrinsecamente triste, ansioso, com frases que as pessoas falam pra mim e ficam pra sempre na minha cabeça, como uma marca que um dono de gado faz em um de seus bovinos. É só a ponta do iceberg. E esse é um dos motivos do meu trauma. Espero que tenha esclarecido. Até mais.