O problema é só com os outros

Muito se fala em bullying nos últimos anos. Pesquisas, livros, teses, palestras e vídeos de alerta são feitos pra que essa prática seja diminuída, especialmente no ambiente escolar, que costuma ser seu palco mais frequente. Na Wikipedia pode-se encontrar uma definição bem direta do bullying: “é um anglicismo utilizado para descrever atos de violência física ou psicológica intencionais e repetidos, praticados por um indivíduo ou grupo de indivíduos, causando dor e angústia e sendo executadas dentro de uma relação desigual de poder.”

A realidade do bullying é, como meus pais costumam dizer, mais velha do que andar pra frente, porém a designação de um termo em inglês trouxe uma definição mais precisa dessa prática e abriu nossos olhos para seus efeitos nocivos. De obras de ficção como filmes, livros e séries à grandes reportagens jornalísticas, o bullying tem sido amplamente discutido nos últimos anos. Depressão e baixa autoestima são apenas alguns dos diversos efeitos colaterais que essa prática pode deixar em suas vítimas.

A internet, como ótimo meio de disseminação de conteúdo que é, acabou dando origem ao seu próprio tipo de bullying: o cyberbullying. Este tipo de bullying é ainda mais covarde do que o bullying convencional, pois pode ser feito no conforto do anonimato e na segurança da impunidade que a internet proporciona a seus usuários, além de conseguir reunir uma quantidade absurda de apoiadores contra uma mesma vítima que se vê cercada de ódio e escárnio por todos os lados, vendo piadas de mau gosto a seu respeito emergirem até de outros países. Neste contexto, existe MC Melody.

MC Melody é o nome artístico de Gabriella Abreu Severino, uma menina de 9 anos de idade que é conhecida na internet por ser funkeira. Melody ganhou fama nacional pela internet ano passado, quando tinha 8 anos de idade, e recebe apoio e incentivo de seus pais para produzir seu conteúdo. Apesar de sempre ter sido motivo de piada por sua pouca habilidade vocal e pelo figurino que utiliza (considerado por muitos inadequado para sua pouca idade), essa semana Melody virou chacota em razão de seu corpo: ela postou uma foto de si sentada numa cadeira de praia e aparentemente seus pés são grandes demais e isso é engraçado.

Já era completamente absurdo que tanta gente se reunisse pra fazer piada de uma criança em razão das músicas que ela cantava, mas observar pessoas no auge dos seus vinte e poucos anos compartilhando e rindo de montagens de tom “humorístico” a respeito do corpo de uma menina de nove anos foi demais pra minha cabeça. Não tem discernimento e senso do ridículo que aguente esse tipo de coisa.

É muito fácil se comover com o mocinho do filme que é injustiçado e come o pão que o diabo amassou nas mãos de vilões implacáveis que o destratam na escola. O mocinho chora, a gente fica com muita pena e pensa: poxa, como é que podem fazer isso com ele?

A gente vê documentário sobre pessoa que sofreu cyberbullying de uma maneira tão avassaladora que acabou sendo internada numa clínica psiquiátrica pra se tratar do trauma e pensa: nossa, será que as pessoas não têm limite?

A gente se depara com uma reportagem jornalística mostrando um jovem que cometeu suicídio por não aguentar mais o bullying que sofreu por anos, que minou sua autoestima e destruiu sua confiança e pensa: quantas pessoas vão ter que morrer até que isso pare?

Deixa eu contar uma coisinha aqui: vocês estão sendo os malvados desse filme. Vocês são pessoas adultas que destratam e inferiorizam uma criança. Pouco importa se vocês a consideram ridícula. Pouco importa se a exposição da imagem dela é excessiva e os pais não deveriam permitir: isso não justifica o bullying que vocês praticam contra ela. Eu sinto profunda vergonha de todos vocês e espero do fundo do meu coração que isso não deixe sequelas futuramente na vida dessa criança.

Vocês são os vilões da história dessa menina.