Sobre corpos que perdem calor

Passei minha vida escolar inteira detestando as disciplinas exatas, sempre considerei que eram inúteis pro dia-a-dia de muita gente (importante lembrar que desde muito nova eu já sabia que queria cursar Direito) e nunca tive paciência pra cálculos. Das exatas, física era a que eu considerava a mais interessante, pois diversos assuntos na parte teórica chamavam minha atenção.

Durante uma aula sobre termodinâmica no ensino médio, meu professor de física afirmou categoricamente: um corpo não ganha frio, apenas perde calor. Grosso modo, o que ocorre é que o corpo vai perdendo seu calor para o meio em que está inserido, por isso começa a ficar frio. Não é o frio que chega, é o calor que sai. Ultimamente estive pensando em como isso se aplica às relações humanas.

Refleti sobre como os relacionamentos mudam de dinâmica com o decorrer do tempo — e isso acaba ocorrendo com todos os tipos, desde os familiares aos românticos e também as amizades. Os anos passam, circunstâncias mudam, prioridades são reorganizadas e às vezes uma relação não consegue mais se adequar. Por mais que ainda se goste da pessoa, tenha por ela consideração e respeito depois de tudo o que foi vivido e haja um sincero desejo de que ela seja feliz, pode ser que não haja mais espaço pra essa relação na vida de ambos.

Assim como o corpo submetido às leis da física que vai perdendo seu calor de pouco a pouco, pessoas podem acabar perdendo o interesse que já possuíram uma pela outra. O interesse é, eu diria, o calor que une os corpos em qualquer relacionamento. Gostar é importante, respeitar é essencial, mas o interesse é a cola que junta todos os fatores numa coisa só. Depois de um certo tempo, mesmo que ainda existam bons sentimentos, se o interesse de outrora já não está mais ali, o calor foi embora.

Dizem que a indiferença é o real oposto do amor, e atualmente tendo a concordar com isso. O amor é proximidade, é a saudade, é vontade de compartilhar coisas e momentos. A indiferença consiste em simplesmente não se importar se a pessoa está ali ou não, se ela está brava com você ou não, se ela precisa de você ou não. Ver um relacionamento que já foi o calor do contato virar o frio da indiferença é mesmo muito triste, e provavelmente um sinal que você deve deixa-lo ir.

Claro que o campo das relações humanas é muito mais nebuloso e menos taxativo do que as leis da física: enquanto a gravidade é implacável e não depende da sua crença em seu poder pra que ela exista, interações entre seres humanos (especialmente aquelas que envolvem sentimentos) são compostas de uma grande área cinza que por vezes é tão incerta que faz até os maiores entusiastas das ciências humanas sentirem falta de resolver problemas com fórmulas. Quisera eu que uma calculadora sofisticada me dissesse a hora certa de desistir de ter contato com alguém.

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