saídas

I said I’m so sorry

To have kept you waiting around

I wish I could’ve come up

Could’ve shouted out loud


Eu caminhava pela rua de todo dia.

Mas tudo estava estranho, de um jeito que nunca vira antes.

Parecia que um furacão tinha atingido aquele caminho, que agora parecia deserto. Todos os cestos de lixo foram revirados, as casas pixadas com símbolos esquisitos, o asfalto repleto de folhas de árvore caídas.

Não tinha percebido um sinal de vida sequer até então: ninguém me ligara, as padarias estavam vazias, nem o lixeiro da manhã parecia estar por ali.

Então eu a vi, lá no fundo, virando a esquina. Uma garota que devia ter lá seus nove anos, mas aparentava bem menos. Bem mirrada.

Ela andava com medo: as mãos nos bolsos do moletom rosa – que parecia mais uma roupa de doação do que realmente desejada -, os passos apertados e certeiros, a cabeça baixa. As mechas de seu cabelo que caíam sobre seus olhos não pareciam atrapalhar sua visão. Até porque aquilo não era importante, ela precisava sobreviver.

Conforme ela se aproximava, comecei a perceber outros detalhes: a mochila cor caramelo lhe oferecia um ar sério.

Seu semblante só se levantou ao cruzar comigo na rua. E então recebi seu olhar denso e penetrante que ao mesmo tempo me culpava e me alertava de algo.

De alguma maneira, me senti envergonhada de estar ali. Envergonhada de, por ser adulta, me tornar uma ameaça. àquela garotinha.

Algo me reconfortou. Eu confiava nela. Na força de alguém que já sofreu com a crueldade humana e agora lutava para sobreviver.

Mas tudo isso pareceu não importar mais. Ao cruzar comigo na rua, no segundo em que sua presença se esvaneceu, percebi que ela usava um All Star vermelho.

E, de repente, me dei conta de que eu estava vestida exatamente como ela. E, diante das circunstâncias, ela poderia muito bem não ser real.

Um resquício, um aviso.

Certamente uma outra versão de mim.