prelúdio

Ela via a chuva na janela. Finalmente estava a salvo. Poderia colocar a culpa no clima. “Muito melancólico”, diriam no trabalho, na manhã de segunda-feira.

Mas todos sabiam a verdade. Nunca foi sobre o clima ou sobre a falta de dinheiro no fim do mês. Ou sobre o cansaço, ou sobre a dor de cabeça, ou sobre descansar no domingo.

Há poucos meses isso se alastrava pela cidade, mas todos queriam manter por debaixo dos panos. Ainda mais em um país caloroso, receptivo e sociável como o nosso — ninguém poderia saber que as pessoas já não saíam mais de casa. Não se encontravam, não conversavam, não se divertiam. O contato social se resumia ao contato obrigatório do trabalho.

Bares e restaurantes ameaçavam fechar as portas. Parques de diversão não lucravam há anos. “Nem o sorvete caseiro do Seu Zé o pessoal tá comprando mais”, o porteiro dizia em uma de suas poucas tentativas de comunicação. Mal sabe ele que até o Seu Zé já se cansou do seu próprio trabalho.

Era um mal estar geral, mas não oficializado. Sinais de que havia algo errado se espalhavam pelos portais de notícia. Mas Lena não queria saber disso, queria estar presente. Aproveitou a deixa do clima para se confortar com um dia caseiro e preguiçoso. Foi até a cozinha preparar uma xícara de chá. Camomila ou mate? Preferiu ficar tranquila. Menos pensamentos, menos chances de crise. Seguiu até o escritório em busca de algo, mas logo se distraiu com Alfredo, que arranhava incessantemente o batente da porta do banheiro. “Quer atenção, seu mimado?” e segurou em seus braços, levando-o à sala. Ao se acomodarem no sofá, Alfredo logo se ocupou de seu brinquedo de estimação jogado junto às almofadas. E Lena mais uma vez se viu diante do vazio.

Vazio de gente, de som, de tarefas, de propósito. Havia tanto a fazer e ao mesmo tempo tão pouco. Podia ser a hora de arrumar aquelas roupas no armário ou mesmo começar um projeto novo. Ver um filme, aprender um instrumento, planejar uma viagem, começar a ioga. Havia tanto a se fazer.