sara

Mais uma vez cutucava o canto da unha. Seus dedos mal se recuperavam dos machucados que fazia por hábito. Mas, naquele momento, não tinha consciência do gesto.

Exceto por este movimento, seu corpo se mantinha imóvel. Se a observássemos atentamente, era possível notar a região do seu estômago se movimentando sutilmente, de maneira quase controlada. A bata preta conferia à Sara um ar de seriedade e confiança, contrastando totalmente com o que acontecia dentro no seu íntimo. Ao menos, assim, poderia se esconder em sua carapaça. As mangas compridas a deixavam segura de que ninguém iria reparar nos pelos tão odiados dos seus braços.

Seu longo cabelo solto, dividido ao meio, pendia sobre seu ombro esquerdo, evitando qualquer possibilidade de sufocamento ou claustrofobia. Seu rosto rechonchudo, elegantemente adornado por uma maquiagem clássica — aquela que tinha ganhado de sua tia no Natal passado — não pareceu se afetar quando ouviu o chamado para subir ao palco.

Era, enfim, a sua hora.


Calma, vai dar tudo certo. Você se preparou para isso e é a única pessoa que conhece o projeto. É só explicar e mostrar a sua paixão pela coisa. Mas seja assertiva, falaram que a gente tem que ser assertiva, confiante. Não pode parecer amadora. Ué, mas eu sou amadora, porra. É amadora sim, mas olha onde você chegou, tá nesse evento internacional. Tu consegue querida, acredite em você. Esse sempre foi seu ponto fraco, se importar demais com a opinião dos outros. Bem que a mamãe dizia que eu ia sentir isso na pele alguma vez na vida. Não, eu tô exagerando. Todo mundo tem medo de falar em público. E isso não significa que eu não seja confiante. Humpf, imagina. Eu, insegura? Jamais. Se há algo de que me orgulho é que sou decidida, firme. É, mas isso não significa confiança, né? Não é nem a mesma palavra. Mas a ideia é parecida. Caralho, acho que não lembro do valor do projeto. Merda, devia ter trazido colinha pra essa parte. E agora, o que eu faço? Eu posso chutar um valor, um teto. Amadora demais. É, nesse caso é melhor nem falar, deixa que os investidores perguntem. O interesse é deles mesmo. Nem sei como uma pessoa consegue ter a pachorra de gastar meio milhão de reais — ou algo parecido, não lembro agora — num projeto ridículo de série para TV. Esse mercado é patético, eu nem sei o que eu tô fazendo aqui. Deveria ter feito trabalho voluntário, viajado, me graduado em algo que desse o mínimo de estabilidade ou dinheiro. Esses caras aí, os investidores, fizeram o que da vida? São herdeiros? Criminosos? Milicianos? Deve ter muito jeito por aí de ganhar dinheiro, eu devo ser a única que ainda não descobriu isso. Mas é claro que– caralho, me chamaram. Respira, sorria e mantenha a postura. Vai que tu é foda, mulher.