Memórias de um Morador de Rua

Fique claro, desde o início, que tais palavras não foram escritas pelas mãos de um pobre morador de rua… afinal, ele não o conseguia fazer, nunca pôde aprender, já nasceu nas ruas e, as ruas foram dele, mesmo que por um curto período de tempo. Agora, passarei a palavra ao meu caro amigo das ruas, Sem Nome, assim preferia ser chamado…

“Não me lembro como nasci, muito menos quem foram meus pais, mas, alguns me disseram que minha mãe é uma tal de ‘Puta’, a quem nunca veio me visitar ou enviou algum cartão postal. Mesmo que não tenha viajado muito em minha curta história — se é que posso chamar isso de história -, eu conheci alguns lugares ímpares, que dariam inveja a qualquer milionário em crise de meia idade. Certa vez eu dormi perto do Jardim Botânico… isso mesmo, eu dormi perto do Jardim Botânico aqui da cidade maravilhosa. Foi uma maravilha… até que um irmão meu, com seu capacete azul e branco, me pediu gentilmente para deixar o local… claro que eu entendi, principalmente após levar umas porradas de cassetete.

Ainda bem que não ligo para violência… desde criança — nessa idade eu ainda era chamado de pivete, que deve ser a forma diminutiva do meu nome verdadeiro — eu convivi com outros Pivetes, Vagabundos e alguns, mais sortudos, se chamavam Marginais… imagine eu, com um nome eloquente como esse? É quase um sonho… Enfim, voltando ao assunto… eu convivi com outros da minha espécie, fizemos grandes peregrinações e vivíamos unidos, como um só organismo vivo. Tudo ia certo, de um modo que não poderia reclamar… nos alimentávamos dos banquetes presentes em grandes caixas de metal, sempre com uma surpresa… uma vez eu comi metade de um croissant, comida nobre… não fosse o gosto de sêmen do preservativo que jogaram em cima dele, diria que foi a melhor coisa que já comi. No entanto, certo dia, um certo indivíduo cessou nossa paz e ‘prosperidade’… um tal de Traficante apareceu em nossa esquina, veio com uma conversa mole, dizendo que todos os nossos sonhos se tornariam realidade — se bem que eu já vivia meu sonho… tinha uma família e era feliz, apesar de nunca ter conhecido meus pais biológicos — e que, para isso, apenas precisaríamos tragar do cachimbo da paz, como os indígenas faziam… mas, o que eu sei, sou apenas um morador de rua, certo?

Alguns dos Pivetes, Vagabundos e Marginais aceitaram a proposta, pouco tempo depois realmente mudando de vida… estavam todos inquietos, conversavam sobre coisas estranhas… falavam de uma tal de maconha, sobre uma coca e um crack… isso me lembra que já bebi dessa tal coca algumas vezes… Foi o melhor natal de minha vida, quando eu e um grande amigo meu, chamado Marginal, ganhamos uma garrafa dessa maravilhosa bebida de alguns simpáticos rapazes, isso foi… Ah, foi no Leblon… ótimas calçadas para se dormir lá, apesar que a estadia seja por tempo limitado… Aquele líquido escuro estava muito preto e era muito saboroso, apesar de um leve gosto de urina, mas, não havia do que se reclamar… Cavalo dado não se olha os dentes, certo?

Voltando aos meus antigos amigos que começaram a trabalhar com esse tal Traficante, pouco soube deles depois, mas, uma vez, quando fui me limpar — o Marginal vomitou em mim, acredita? Eu disse a ele para não comer cru aquele rato que encontramos na Lapa, mas ele não me ouviu… mas é justo, a fome nos deixa surdos, cegos e completamente sem paladar — eu vi um dos Vagabundos, que começou a ser chamado de Fogueteiro, estirado no chão, junto com outros que não reconheci, dado que estavam todos com o rosto desconfigurado por tiros de fuzil… graças a Deus não me meti nessa encrenca… aliás, alguém sabe o que significa essa expressão? Nunca soube bem quem é esse tal de ‘Deus’, mas, certas pessoas, quando passavam perto de mim — eu já tinha até barba nessa época — falavam: “Deus te abençoe, Deus me perdoe, Deus me livre”, então, entendo que ele é muito importante e deve ouvir a todos de qualquer lugar… bem melhor que o prefeito ou o presidente, que segundo o Vagabundo que dorme perto do bar da esquina, disseram que iriam acabar com a pobreza do país… mas eu devo ser estrangeiro, porque o que eu mais vi e mais vejo é pobreza.

Sempre quis ter uma profissão, sabe… eu conheci um médico uma vez, quando estava vivendo perto do hospital — lá as pessoas eram assustadoramente irritadas. Ele sempre chegava num carro importado, sempre com muita pressa, era jovem e tinha os cabelos bem aparados e uma barba bem feita, como eu nunca tive o prazer de ficar… exceto quando tive piolhos e meu amigo Marginal me ajudou, ateando fogo no meu cabelo… não fosse ele, acho que a coceira teria me matado. Eu fiquei assustado que, uma vez, o médico me viu em frente ao hospital e tirou umas moedas do cinzeiro do carro e as colocou em minha mão, dizendo “vá comer alguma coisa”… desde esse dia, eu admiro muito essa profissão. Acho que meu sonho pode ser realizado, um pastor disse, uma vez na Igreja — sempre me deixavam comer um pedaço de um pãozinho lá -, que, o Senhor realiza todo tipo de milagres, até melhorar a vida dos mais necessitados, mas, quando fui perguntar a ele sobre esse tal Senhor, fui confundido com meu amigo Bêbado, e fui expulso por dois homens vestindo ternos — bem parecidos com o que o médico usava. Esse meu amigo deve ter feito muita coisa errada para ser jogado assim para fora de um lugar.

Ainda existem muitas coisas que desejo contar… mas, no momento estou com muito sono e, espero que amanhã o dia seja melhor…”

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