A narrativa pós-humana e a importância de pensar sobre a história que contaremos

Paulo Noboru
Sep 7, 2018 · 4 min read

O campo das artes é, sem dúvida, o lugar por excelência de exploração do futuro da humanidade. Seja um apocalipse ou uma utopia, sempre acabamos tendo um gostinho disso em filmes, livros ou jogos, por exemplo. Lembro-me que o filme “Ex-Machina” ganhou uma grande repercussão pelos interessados por ficção científica ou apenas por apenas relação máquina-humano. Eu sabia, ao ter terminado de assistir pela primeira vez, que havia adorado. No entanto, na época, não havia percebido que ele me mostrava algo importante.

O filme, ao contar a história de Ava ou o próprio “Inteligência Artificial”, com a história da jornada de David, serviu para eu pensar em uma questão apresentada a mim através da leitura de Donna Haraway. De acordo com a autora, em seu último livro,

Importa quais pensamentos pensam os pensamentos. Importa quais saberes sabem saberes. Importa quais relações relacionam relações. Importa qual mundo constitui os mundos. Importa quais histórias contam as histórias.

É importante pensar em como contaremos a nossa história, sobre o que nos representa, uma vez que determinar uma representação é um ato político. Dar espaço a diferentes vozes é deslocar e posicionar, aquele antes excluído, em uma posição de legitimidade. Claro, ainda são os humanos contando a história que tem, como protagonista, uma inteligência artificial. No entanto, através da história de uma máquina que tenta conquistar seu espaço de um criador controlador e que dita sua vida, (além de podermos metaforizar o próprio ser do humano) é possível ver uma narrativa diferente do que normalmente acontece com inteligências artificiais.

Então, aqui, pretendo, aos poucos, explicar o motivo de escolher o pós-humano para contar a história sobre um novo sujeito. Escolhi começar tratando de uma questão que pode soar totalmente desnecessária, mas, para mim, é importante discutir qual termo e a bagagem que traz para representar o novo humano. Um trabalho que será feito em doses homeopáticas, mas que provavelmente irá me ajudar a refletir sobre a minha própria pesquisa.

As mudanças vividas pelo mundo são as mais drásticas desde o neolítico, segundo Serres. Acompanhando estas mudanças, estão as tentativas dos pesquisadores de compreender estas e racionalizar um mundo em transformação. Sendo assim, uma nova onda de termos começa: pós-humano, trans-humano, pós-orgânico, etc. Vistos, às vezes, como sinônimos, estes termos encontram-se vinculados a movimentos ou conceitos específicos, o que, para mim, é um fator atenuante para que paremos e pensemos: qual deles irá representar, narrar a história do novo humano.

Pós-humano, transhumano e o que mais?

O “pós-humano” é um termo guarda-chuva que, hoje em dia, acabou adotado e ainda continua sendo, por grupos diversos. Enquanto cada um detém suas características, estas acabam convergindo sobre o mesmo ponto, confundindo, muitas vezes, o leitor. Afinal, de qual pós-humano eu quero falar?

Quero, primeiro, falar do pós-humano que eu não quero falar, pelo menos por enquanto. O pós-humano é um termo utilizado dentro do movimento transhumano. Ele seria a nova etapa evolutiva do ser humano, baseada na intervenção tecnológica para que ocorra (https://whatistranshumanism.org/#what-is-a-posthuman). Entre as suas iniciativas, estão pesquisas com remédios para prolongar a vida e a digitalização da consciência humana, por exemplo.

Enquanto alguns autores, como Fukuyama, utilizam “pós-humano” para tratar dos objetivos do movimento mencionado, eu prefiro apenas chama-lo de “transhumano”. Por mais que chegar no próximo humano, utilizando as tecnologias, seja seu objetivo, os envolvidos ainda não conseguiram se deslocar da posição intermediária, ou seja, do transhumano.

Já o pós-humano de que quero tratar é, sim, decorrente (ou pelo menos um tipo dele) da relação homem-máquina, mas se encontra mais na dimensão simbólica, como uma nova representação de quem o “humano” pode ser, englobando os mais diversos tipos de existência. O ser humano não é, ao contrário do que muitos presumem, um direito de todos neste mundo. Ainda vou me adentrar melhor neste assunto, mas, adiantando um pouco, precisamos simplesmente lembrar de como povos nativos foram tratados pelas potências europeias durante as grandes navegações e os processos de colonização; da escravidão de negros e de outros povos; da subjugação da mulher perante o homem, por exemplo. Talvez, eles não eram tão humanos perante o olhar do outro para serem tratados como tal e ter seus direitos.

Ao estabelecermos um novo humano, ou seja, pós-humano, talvez se estabeleça novas relações de poder ou desestabilize as já existentes. De acordo com filósofa Braidotti, o pós-humano é uma condição para pensarmos crítica e criativamente sobre quem e o que nós estamos no processo de nos tornar. O pós-humano conceberia toda aquele que foge, rompe com a representação falida de humano vinda do Humanismo.

Braidotti complementa, dizendo que

Isso significa que precisamos aprender a pensar de maneira diferente sobre nós mesmos.

Sendo assim, é importante definir, aqui, que história irá contar a história do novo humano. Eu escolho esse pós-humano do agora, das redes, do não-humano e humano em conjunto expandindo as barreiras até pontos antes não imaginados para narrar nossa futura história.

Este texto foi escrito para o meu blog Alucinação Consensual.

Referências:

BRAIDOTTI, R. The Posthuman

FUKUYAMA, F. Nosso Futuro Pós-Humano

HARAWAY, D. Staying with the Trouble

Paulo Noboru

Written by

Mestre em Linguística Aplicada (Unicamp) e, atualmente, doutorando em LA.

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