Ser ou Não ser, Depende das Novas Tecnologias?


por Paulo Kawanishi


Ser ou não ser,
depende das novas tecnologias?


Pensemos juntos, caro leitor.
Há milhares de anos, nossos antepassados ainda estavam aprendendo sobre o mundo. Eles caminhavam de maneira diferente de nós, falavam de maneira de diferente e eram muito mais parecidos com macacos do que nós somos hoje em dia. Estou me referindo aqui aos seres que aparecem no filme 2001: Uma Odisséia no Espaço. Estes aqui, mais precisamente.

Como podemos ver, o primata está segurando um osso que, por algum motivo, ele utiliza para bater (ou é o mínimo que se possa supor, caso não tenha visto o filme). Não sabemos o contexto da situação. O que importa é o fato de ele aprendeu que bater com o osso é muito mais eficaz do que bater com seus punhos. Talvez estes sejam muito macios ou pequenos. Vai saber.
Agora, vamos imaginar que este mesmo ser irá utilizar o pedaço de osso para matar algum outro animal. Ele pode ter sentido uma vontade imensa de atacar o outro ser e utilizou a tecnologia que havia adquirido para alcançar seu objetivo. Seria o macaco um ser maldoso? Seria uma questão de perspectiva se sua ação é má ou boa? E quanto ao osso? Será que ele corrompeu moralmente o primata, levando-o a matar algum outro ser?
Eu não sei você, mas acredito que viver nesse mundo é muito complexo para se pensar que o osso tenha influenciado e seja culpado pelas mortes que participou.

Há pouco tempo, a Globo fez uma matéria em seu famoso programa Fantástico em que falava sobre jogos on-line. Nele, eles buscaram apresentar casos que comprovariam a má influência desses jogos na vida de muitas pessoas. Como eles levavam as pessoas a gastar grandes quantias de dinheiro, esquecer de suas próprias família e até expor o próprio corpo por algo considerado como ilusão.
De maneira tendênciosa, a matéria só demonstrou uma falta de um melhor entendimento sobre a questão da conexão e seus derivados, como jogos on-line. Claramente, vê-se que eles apontam os jogos como causadores da desgraça na vida daquelas pessoas.
A hipótese de que o acontecido seria um tipo de sintoma da pessoa, evocando questões pessoais muito mais profundas, nem é considerada. Talvez, a compulsão em gastar com o jogo para avançar de nível rapidamente que um rapaz de família rica tinha fosse algo além. Contudo, parecia óbvio que era culpa do jogo. Afinal, ele vicia.

Tantos outros casos já foram discutidos, como o suposto papel do jogo Assassin’s Creed na decisão de um menino matar os pais. Muitos já se posicionaram sobre esse assunto. Entretanto, mesmo sendo um tema debatido com alguma frequência, ainda podemos encontrar generalizações sobre uma questão muito parecida.
Aviso que eu volto para tratar de uma questão que me incomoda profundamente. Caso não saiba do que estou falando, você pode conferir um outro texto meu, clicando aqui.

Como argumentei nesse meu outro texto, como podemos responsabilizar a tecnologia em si por algo que fazemos? Pelo que somos?


A tecnologia é a sociedade e a sociedade não pode ser entendida ou representada sem suas ferramentas tecnológicas.

- Manuel Castells


É muito comum, dentro das próprias redes sociais digitais, várias pessoas criticarem o uso dessas e a fixação de muitos com os celulares.
Lembro-me de, ao comprar eu Ipod Touch, eu o tinha em meus bolsos em todos os lugares que estava. Sobrando um tempo, lá estava eu tentando aproveitar de um dos tipos de expressão artística que mais me emociona. Para muitos, porém, eu estava fazendo algo muito errado. Até ouvi algo como

“Você está se excluindo com esses fones de ouvido.”


Bom, eu realmente estava. Não queria papo mesmo e, depois de algum tempo, essa técnica não havia sido empregada apenas por mim, mas por várias pessoas.
Não querer falar com as pessoas não é resultante da posse de um Ipod. Talvez, eu possuía tal tecnologia para poder exercer aquilo o que queria: o direito de não querer falar com ninguém.
Hoje em dia, estou muito mais sociável (caso queira testar, pode me enviar um “alô” no Twitter). Com a idade e estudos, veio, também, uma melhor compressão sobre o comportamento das pessoas.
Exatamente por isso que, vídeos como este, incomodam-me muito!

Como o vídeo ilustra, estaríamos tão viciados em nossos gadgets que não daríamos importância para mais nada. Tudo se banalizou. Se não me engano, há algum tempo, um dia depois do falecimento de Robin Williams, li alguns textos falando como a internet não deu tempo para sentir luto. As pessoas já não respeitavam um momento tão delicado, como a morte de um ser humano.
Claro.
Era tudo culpa da internet.

O mesmo argumento do vídeo, aplicado à situação do primata que citei no começo, resultaria na seguinte conclusão: ele tem um osso, logo, ele quer matar ou bater em algo, já que esta nova tecnologia o leva a tal.

O filósofo Pierre Lévy trata a questão muito bem ao falar que: Uma técnica é produzida dentro de uma cultura, e uma sociedade encontra-se condicionada por suas técnicas. E digo condicionada, não determinada. (…) A invenção do estribo permitiu o desenvolvimento de uma nova forma de cavalaria e as estruturas políticas e sociais do feudalismo. No entanto, o estribo, enquanto dispositivo material, não é a “causa” do feudalismo europeu. (…) O estribo condiciona efetivamente toda a cavalaria e, indiretamente, todo o feudalismo, mas não os determina.

Dizer que a técnica condiciona significa dizer que abre algumas possibilidades, que algumas opções culturais ou sociais não poderiam ser pensadas a sério sem sua presença. — Lévy

Como muitos lugares tentam argumentar, com avisos fofos, que as pessoas não têm wi-fi no estabelecimento e, sendo assim, elas deveriam conversar umas com as outras, muitos continuam a pensar que não lidamos socialmente da mesma maneira porque eles estavam conectados.
Nós estamos individualistas por questões muito mais complexas do que simplesmente o advento das novas tecnologias de comunicação e informação.
Não foram as bombas atômicas que influenciaram a decisão da morte de vários, ou a criação de câmaras de gás que levaram à morte de milhares de pessoas durante a segunda guerra.
Se o primata queria ou precisava matar algo, ele age em conjunto com a técnica aplicada para tal.
Só não deixemos que continuem a responsabilizar simples peças de metal ou plástico pelo mal que fazemos uns aos outros.


Paulo Kawanishi é mestrando em Linguística Aplicada e defensor das questões linguísticas e sociais que têm relação com tecnologia.