A Fábrica do Tempo

Ele vivia chegando atrasado. Até pra nascer passou da hora. Não era desorganização, não. Preguiça?, muito menos. Era um desconforto, um mal-estar com esta obrigação de sempre estar na “hora certa”, de fazer tudo no “tempo certo”, de não “perder tempo”.

Era, talvez, um entrave ideológico: como não acreditava na existência do tempo, não via lógica em viver subordinado a tal conceito irreal. “Pra que perder tempo correndo atrás do tempo?”, pensava, paradoxalmente, de tempos em tempos. Toda pessoa uma é contradição ambulante, ou toda contradição é ambulante em Pessoa?

Sempre, sempre, sempre, quase sempre, lembrava do trecho de um poema de Lucas de Meira:

faz tempo

que o tempo

não dá um tempo

Para resolver as coisas, criou a Fábrica do Tempo. Fábrica, não máquina. A máquina do tempo é coisa ultrapassada, obsoleta, só serve pra ir pra frente e pra trás e pra quebrar nas horas mais difíceis. Por outro lado, a Fábrica cria dias, produz horas, manufatura minutos, arquiteta instantes, constrói segundo a segundo mais um tempinho pra você poder usar da forma que bem entender!

Já faz tempo que não tem tempo pra outra coisa. Vende milhões, bilhões, pinhões de momentos! a cada átimo. E segue ligeiro, parado no tempo, envelhecendo, multiplicando o tempo, essa falácia que aumenta todo dia quanto mais chega perto do fim…