O tempo é petit

Como começar? De trás pra frente? Do início? Do meio pro fim? Escolhi começar de vereda, pra pegar desprevenido quem está de varde. Dois conhecidos se trombam no centro da capital mais colona do mundo. Não se veem há uma década, mais ou menos. Trocam banalidades, o tempo ruge pra ambos, é urgente partir. Combinam aquele encontro genérico e se despedem. A tarde corre, logo finda. Um deles sai no pinote pra compensar o tempo perdido, tropeça na falha do petit-pavé, dá com a cabeça no meio-fio, morre na hora, ou quase. O outro nem vê, acelerado que está na direção contrária. Dez ou mais anos depois, esbarra num amigo comum, finalmente descobre que o conhecido morrera tragicamente e comenta: “acho que a gente se viu, pouco antes disso, um mês ou dois, sei lá. Marcamos uma cerveja. Depois nunca mais vi. Mas desculpa aí, preciso correr, tou atrasado!” E sai, trupicando calçada afora.

na estrada férrea no tempo