A partir dos 17 anos, momento em que adentrei consistentemente no hábito de ler sobre conservadorismo e seus congêneres, sem perceber fui sedimentando na minha consciência uma visão de mundo a qual mais dia menos dia iria subscrever pelo bem do meu equilíbrio emocional. É muito duro viver num mundo em que não se brada certezas do alto de seu telhado (vulgo perfil de facebook). Quando se cessa a preocupação em tomar posições há uma abertura para outras cores além do azul real e vermelho sangue e ao mesmo tempo há um aprofundamento no ensinamemto de Santo Agostinho que diz ser o pecado da mesma matéria que é feita a virtude. As virtudes seriam apenas rearranjadas de outra maneira segundo um princípio ordenador e não segundo um princípio metafisicamente entrópico. A miríade de cores que o mundo representa sem filtros ideológicos é realmente infinita, mas de certo ângulo todas elas parecem ser gradações diferentes do cinza. O cinza é uma das cores litúrgicas da quaresma junto com o roxo. O cinza me arrebata como uma experiência da banalidade da vida, como se tudo ao redor fosse frágil, inconsistente.

Vou dividir convosco um exemplo pessoal: assenti facilmente a tese de que a onda de pessimismo atual presente na literatura ocidental seria consequência do Romantismo, seria o idealismo exagerado (exaltação imaginativa na acepção de Paul Diel) desse movimento a semente podre que germinou e se materializa em todo esse culto ao terror; esqueça Stephen King, O Exorcista, a obra mais perturbadora que pude ter contato é Meridiano de Sangue de Cormac McCarthy. Nele há uma profunda consciência da nossa miséria e tendência natural à violência.

Não é só pelo assassínio em massa de uma vila inteira composta apenas de mulheres e crianças indígenas, há finalmente situações em que o leitor é chamado a meditar sobre os genocídios que ocorreram no século passado. E a literatura de que falo não tem nenhuma relação direta com todas as centenas de filmes sobre a 2a guerra mundial e o massacre dos judeus. Ali, salvo raras exceções, há apenas a identificação de um bode expiatório que estimula a ressonância de escárnios coletivos sem levar a maiores meditações sobre a maldade humana. É algo exterior, as referidas películas dizem-me respeito unicamente no tocante a minha "infinita compaixão" direcionada àqueles que sofrem. Essa é o tipo de história que vende bastante, pois todos se sentem melhor consigos mesmos após ser ouvida.

Muitos gostariam de jogar na lata do lixo a cultura que nós temos e voltar há tempos mais idílicos, eu era um desses até há pouco tempo. A verdade é que não interessa a filiação partidária ou confissão religiosa, uma boa história tem a ver com a habilidade do artista em falar um mundo que em algum sentido nos reconecte com o resto da humanidade. A literatura deve trazer a angústia como a nódoa de lama ornamentando um terno branco, assim fala o poeta.

É justamente por querermos fugir da nossa cultura que a merecemos, a salvação da nossa consciência perpassa a experiência sombria que muitas obras atuais oferecem.

O caminho da salvação definitivamemte não é para as estrelas alvas, nem as virgens cem por cento. Você se suja no caminho, mas com alguma sorte aprende a se limpar também.

Creio que é disso que esse texto trata, de aprender a amar o que não é amavel.

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