A presente reflexão se iniciou após ter lido a entrevista do grande Harold Bloom, crítico americano autodeclarado democrata, sobre o livro Meridiano de Sangue do Cormac Mccarthy ( que pode ser encontrada aqui: http://www.avclub.com/article/harold-bloom-on-iblood-meridiani-29214). Em determinado ponto Bloom aponta a filiação faulkneriana que o autor adota, principalmente se tomarmos como referencial de legado de Faulker o “Enquanto agonizo”. Bom, por mais que me apeteça a idéia de afirmar em público que discordo de Harold Bloom, minha consciência me impõe a conduta de enumerar pontos que podem ser vistos como prós e contras dependendo da perspectiva:

1- Em “Enquanto agonizo” encontramos de maneira mais clara o “pathos” trilhado em uma tragédia grega, ao mesmo tempo que Faulkner tenta driblar as regras enumeradas na Poética de Aristóteles. Subrepticiamente, o autor brinca com as categorias Tragédia e Comédia de maneira muito sagaz. Mesmo os personagens não cumprindo a estatura moral e clareza de consciência suficiente para tão arriscada aventura, eles não caem numa escada descendente de banalização como seria esperado em qualquer outro livro ocidental. Há algo no caminho que os transforma em algo que não nos faz enrubescer as faces por presenciar simplesmente o ridículo ou o patético. Há algo lá que foge as categorizações do herói, e pressinto ter algo a ver com a compaixão pura e simples, a participação intensificada das personagens no gênero humano.

2- Os dois romances desafiam nossos padrões estéticos, um com a apresentação das agruras de almas fragmentadas através da técnica do “fluxo de consciência” e outro através da violência, não como um artifício barato para provar um ponto, mas como condição essencial dentro da alma humana. Meridiano apresenta uma forma narrativa mais tradicional e muitos críticos apontam sua imprecisão no tocante aos limites psicológicos entre narrador e personagens, especialmente no caso do Juiz Holden. Já em Enquanto agonizo, essa imprecisão levaria à implosão da trama, haja vista a necessidade de delimitar a perspectiva de cada uma das personagens cuja consciência é representada nos capítulos.

3- Há uma inegável similitude no ambiente inóspito narrado nas duas obras e uma influência faulkneriana admitida pelo próprio Mccarthy em suas obras. O kid é um homem que leva até as últimas consequências sua individualidade. Já Darl é o referencial que melhor situa o leitor dentro do romance. A grande diferença é que um se fortalece cada vez mais em sua busca e o outro mergulha numa separação de personalidades romance ( se observa melhor essa questão em: http://www.semo.edu/cfs/teaching/17525.html). Vale salientar que na obra de Faulkner, o juiz Holden se encarna no próprio desenrolar das circunstâncias e nos urubus sobrevoando a família retirante.

Como provocação e ansiando por uma refutação solto um chute/opinião para quem leu algo dos dois autores: Não dá pra perceber que Faulkner permite que nas frestas do seu romance escape doses luminosas de bondade enquanto em Mccarthy a felicidade e realização não se encontra neste mundo mas se houver ela só pode existir num próximo, que seja maior que o atual e o justifique?

P.S.: Essa dita imprecisão encontrada em Meridiano de Sangue pelos críticos só reforça meu sentimento que o autor enquanto escrevia lutava contra seus próprios demônios e andava em territórios da imaginação de mata nativa, intocados pelo engenho literário.

Espero que o texto sirva para instigar a leitura ou releitura desses dois livros.

?,��� �

Show your support

Clapping shows how much you appreciated Aluizio Neto’s story.