Esse é um mero capítulo de um conto que estou escrevendo:

- Solutio

Lá estava Félix com seu corpo imerso concentrado na dissolução de seus estresses diários no caldeirão de sais aromáticos localizado no banheiro de sua casa. Os ladrilhos brancos ao seu redor não eram do seu agrado, ele os escolheu num arroubo de decisionismo impaciente. A preocupação do arquiteto ao tempo com os mínimos detalhes o irritou de tal maneira que Félix começou a tomar decisões padronizadas, respondendo às perguntas do pobre homem baseado no que já tinha visto em casas que visitou sem maior reflexão; pensava que as consequências não poderiam lhe causar maior desgaste psicológico que o convívio com aquele cidadão por mais algumas horas.

Dez meses depois restava claro a Felix que o visual espartano sóbrio que tanto achava adequado nas residências alheias não lhe reconfortava como esperado. Deu um tempo razoável para se acostumar com os ares residenciais anti-kitsch sem maior sucesso.

Uma pia despretensiosa, um armário de madeira abaixo, vaso sanitário e a banheira, tudo cercado por um branco opaco. Esse era o banheiro em que o homem jazia.

- Tudo será pouco, opaco e deficiente –

Até que o fruto apodreça e renasça em semente, dizia ele.

SPLASH! Submergindo seu corpo embaixo da água espumosa, resistiu até onde pôde, mas veio à tona ofegante. Repetiu as palavras mágicas e submergiu mais uma vez. SPLASH!

Felix acordou noutro dia com a pele toda enrugada e uma dor de cabeça irritante. Se levantou desequilibradamente da banheira respingando água em todo cômodo e esticando a mão para pegar seu roupão amarelo. Caminhou um pouco e se sentou na cama. Houve um longo suspiro seguido por uma sentença definitiva: “A vida não é para os desesperados”.

Show your support

Clapping shows how much you appreciated Aluizio Neto’s story.