A Super Tigela
Para os menos fãs de carnaval e mais atentos em esportes exóticos domingo será mais lembrado pelo SuperBowl 50 do que pelos desfiles de Beija-Flor e Grande Rio. As mais de quatro horas de transmissão que terão um show do Coldplay e os comerciais mais caros do mundo (5 milhões por 30 segundos) além, é claro, de sessenta minutos de bola rolando. O maior evento esportivo do ano segundo os americanos deverá ter uma audiência superior aos 200 milhões, 180 milhões nos EUA, colocando o evento como uma das maiores transmissões esportivas de um evento anual, mas atrás da final da Champions League, que supera os 300 milhões de espectadores.
Como qualquer esporte norte-americano, o futebol americano é bastante peculiar. Surgido no século XIX a partir do Rugby Football, o esporte se profissionalizou bem antes do seu ancestral e, com o tempo, se tornou um belo produto. As três horas de transmissão são coalhadas de estatísticas e curiosidades do tipo “Esse time nunca ganhou em jogos com temperaturas abaixo de 0 num Monday Night Football.”. A coleção de números ajuda a tornar o tempo entre os snaps e as muitas pausas menos massantes. Essa anatomia, no entanto, é um dos pontos fortes. Diferentemente de um jogo de futebol, que pode ser um zero a zero modorrento, ou mesmo de um jogo de rugby ou de basquete, que podem terminar sem muitas emoções, as muitas jogadas ensaiadas e repetidas ao longo do jogo certamente criarão pelo menos um grande lance ao longo do jogo, seja uma corrida longa, uma grande recepção ou uma interceptação no último segundo, como a que definiu o Superbowl XLIX (sim, os romanos estão errados, mas é uma questão de estilo).
Para 2016, antes do jogo são mais lembrados os números megalomaníacos que envolvem o jogo. 1,3 bilhão de asinhas de frango serão consumidas. Sem contar os muitos cachorros quentes e o equivalente a uma latinha de cerveja para cada habitante da China, Índia, Indonésia, Brasil, Paquistão, Nigéria e Bangladesh. Para reforçar, esses números são só nos EUA. O evento é tão grandioso que outros esportes pegam carona. Há cinco anos na véspera de um Superbowl o UFC realizou a luta entre Anderson Silva e Vitor Belfort.
O Superbowl é um marco cultural, por mais que o esporte seja bastante interessante com seus downs, tackles e touchdowns e angarie muitos fãs justamente pela sua fisicalidade, ele sempre será umbilicalmente ligado à cultura americana. É impossível pensar no jogo sem pensar nos grandes comerciais, nas estrelas cantando o hino nacional ou o show do intervalo. Assim como em qualquer outro lugar do mundo seria muito bizarro admitir que um cartola levante o troféu antes dos atletas (algo que os presidentes de Corinthians e Palmeiras fizeram ano passado… bizarro). Num país que torna um show até o hábito de escolher os jogadores pro time, o que a gente faz com um par ou ímpar antes de jogar na rua, tudo tem que ser parte de um grande show. Se você foi atento o suficiente, percebeu que é possível discorrer tanto sobre o grande jogo sem sequer citar o nome dos clubes, ou melhor: franquias, que disputarão a peleja. É um espetáculo em que por vezes é possível até esquecer-se da figura dos atletas. O evento é muito maior do que o próprio jogo mas, por sorte do esporte, não pode prescindir dele.
