Carta aberta aos escritores e leitores de cartas abertas

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Querido leitor,

Não, eu não vou fazer isso

Cartas abertas são a forma mais fácil de se criar uma polêmica na internet hoje em dia. É só escrever uma, falar algumas verdades, combino com percepções pessoais de outras situações, dou meu veredicto e pronto: Treta jacta est. Não é de hoje que se publicam cartas abertas, mas era de se esperar que na era dos 140 caracteres este número fosse radicalmente reduzido, ainda mais depois da carta do respeitoso Michel Temer.

Recentemente algumas cartas abertas fizeram muito sucesso. Um certo Mark Manson (que até agora eu não sei ao certo quem é) escreveu uma carta aberta ao Brasil na qual ele vocifera contra a nossa formação e diz, nas entrelinhas, que os brasileiros são o problema e postula como solução uma mudança na cultura e na constituição. Mason fala tudo isso do alto de seus quatro anos de Brasil, tempo bem menor do que o investido por Darcy Ribeiro em estudo e pesquisa para escrever “O povo Brasileiro”, obra seminal sobre a formação cultural de política de nosso país. A primeira questão aqui é, óbvio, a relevância. Mark Manson é, segundo sua própria página, um Autor, Coach e Entusiasta da Vida. O que significa isso? Bom, eu não sei também. O ponto é: Quem escreve, nesse caso, não tem não goza de autoridade, propriedade ou conhecimento particular para discutir um tema. Na sua carta o americano (?) diz, entre outras historinhas, que no Brasil vaidade não é considerada uma ofensa e isso é diferente no seu país. Por essa lógica ninguém se interessaria em comprar a Vanity Fair.

‘Mas a ideia dele pode estar certa e você está refutando apenas baseado em quem ele é?” SIM. Ideologias ou conhecimento seguem caminhos mais ou menos parecidos. Lembra quando um monte de gente compartilhou um vídeo cheio de artistas da Globo falando sobre Belo Monte? O vídeo foi logo refutado por alguém que tinha domínio sobre o assunto. Estudantes (orientados por professores, claro) da UNICAMP gravaram uma réplica e a vida seguiu. A aceitação de uma ideia passa necessariamente, pela validação de alguma coerência e consistência entre o que se apresenta e quem a apresenta. Ninguém faria a receita de picanha da Bela Gil. Além disso esse teste é importante pra validar se, além do que está sendo apresentado, eu não estou me comprometendo com uma outra ideia. Esse comercial clássico da Folha é bem lúdico quanto a isso

É possível contar um monte de mentiras falando só a verdade.

A segunda carta aberta que apareceu por esses dias foi a do (sempre) patético Rodrigo Constantino, que nessa altura do campeonato um feliz morador de Miami. O jornalista demitido pela Veja repete alguns erros do amigão Mason ao escrever uma carta de suporte ao pré-candidato republicano Mark Rubio, que ainda não está emplacando nas primárias. A falha central: ele escreve para alguém com quem não tem nenhuma interlocução ou afeto. Para efeito de comparação é como se eu escrevesse uma carta convidando a Beyoncé pra sair e o Jay Z descobrisse. A primeira coisa que ele ia pensar, antes de mandar me caçarem é “quem é esse cara? Ele não é ninguém”.

Quando se faz uma carta aberta com um destinatário final (como essa) a intenção é que o conteúdo seja divulgado de forma crescente até atingir o destinatário que, a essa altura, estará compelido a tomar medidas ou pelo menos a responder. Constantino, todavia, tem seguidores no Brasil, um país cheio de pessoas que não votam nas primárias americanas, Isso sem contar algumas indelicadezas cometidas e a propagação a ideia de que Bernie Sanders é socialista. Se Sanders fosse socialista ele não iria querer regular Wall Street ele iria querer destruir o mercado financeiro. Eu o colocaria como um social-democrata.

Voltando a Constantino: uma carta de apoio de uma pessoa que não tem nenhuma empatia com o apoiado a ser lida por pessoas que não tem nenhum poder de decisão sobre a ocorrência. Parece piada, e é. Nosso herói deve estar buscando um emprego num Saturday Night Live ou programa análogo.

Dessa forma, eu sugiro fortemente que antes de compartilhar uma carta aberta você tome alguns cuidados. Quem sabe eu até mude o nome desse post para 5 coisas para fazer antes de compartilhar uma carta aberta.

  1. Informe-se sobre quem escreveu. Tente saber se ele tem relevância ou domínio particular sobre o tema ou interesses subjacentes ao que está sendo escrito.
  2. Leia bem, pequenas inconsistências podem comprometer o conteúdo.
  3. Se você está pensando em compartilhar, possivelmente entende que o documento tem algum público alvo, certifique-se que você é relevante para quem você quer que leia aquilo. (Beyoncé não vai ler minhas cartas.)
  4. Sempre que possível, não compartilhe. Elabore, absorva, busque contrapontos, formule um pensamento original e discuta.
  5. Busque referências, elas normalmente não são os escritores de cartas abertas.