Um foco de luz

Em tempos de muita pirotecnia e sensacionalismo tanto no cinema quanto no jornalismo “Spotlight”, um dos melhores filmes de 2015, tenta romper estes paradigmas convidando o espectador a conhecer de perto a história da investigação sobre o acobertamento de casos de pedofilia por parte de oficiais da Igreja Católica conduzida pela equipe que dá nome ao filme, parte do time de jornalistas do Boston Globe no início dos anos 2000.

McAdams, Keaton e Ruffalo: Grandes atuações.

O tipo de trabalho conduzido pela equipe Spotlight demanda um nível bastante alto de discrição. Investigações que duram meses e meses para resultarem em algumas páginas de jornal talvez não sejam propriamente a coisa mais empolgante do mundo. Nisso vem o primeiro grande êxito do filme: não tentar florear ou tentar criar super-heróis. Somos apresentado a um grupo bastante dedicado ao trabalho que, mesmo nos momentos de folga, está buscando novas informações ou termina indo para o escritório do jornal, retratado como um bunker bastante iluminado. Não existem subtramas familiares do tipo “esposa diz que personagem está trabalhando muito”, o foco é total no trabalho.

Como em uma boa investigação, não existem grandes saltos, as coisas vão de passo a passo. Cada nova informação vai levando a investigação mais a fundo, a um novo patamar onde novas perguntas esperam para ser feitas e diferentes personagens precisam ser confrontados. Um filme deste tipo demanda um nível de atuação bastante elevado. O quarteto da equipe, formado por Michael Keaton, Brian D’Arcy James, Rachel McAdams e Mark Ruffalo, brilha, e tem suporte nas outras boas atuações que renderam ao filme o prêmio de Melhor Perfomance de Elenco do ano no SAG Awards. Não existe espaço para overacting, as reações são contidas como precisavam ser.

Por último, além ser um filme bom tanto em seu roteiro quanto em sua atuação, ele é bastante correto em sua direção. Algo a se notar, já que o último filme de Tom McCarthy havia sido o LAMENTÁVEL “Trocando os pés”. Um erro numa trajetória que já havia lhe dado uma indicação ao Oscar, pelo roteiro de “Up”. Sem tentar inventar muito a direção exalta uma história relevante. Possivelmente a mais relevante dos últimos anos no cinema, junto com “12 anos de escravidão”. O caso revelado em 2002 remontou mais de 30 anos de casos de abusos sistematicamente encobertos não só em Boston como em diversos outros lugares do mundo. Uma grande lista é apresentada no fim do filme com cidades onde foram descobertos estes casos, quatro no Brasil: Arapiraca (AL), Franca (SP), Mariana (MG) e Rio de Janeiro (RJ). Casos que nem de perto tiveram a mesma repercussão que ganharam na mídia norte americana e foram timidamente retomados por alguns veículos que falavam sobre o filme. Uma grave falha pra um veículo que, nas palavras de um dos personagens, deveria buscar sempre ser essencial aos seus leitores.

Como filme Spotlight está em grande circuito, foi indicado a seis Oscars e é o meu favorito para duas premiações: Melhor Roteiro Original e Melhor Filme. A investigação real, rendeu a seus repórteres o Pullitzer em 2003, e um ponto de mudança a muitos que conviviam com o silêncio e o medo em suas próprias histórias. O Boston Globe fez uma página especial sobre a história e o filme, apresentando os jornalistas reais e o desenrolar dos casos. Vale a pena dar uma olhada.