Os Olhos


Os olhos abriram e recusaram-se a fechar-se outra vez. Sem motivo algum, apenas por vontade própria talvez, não se sabe ao certo. Nessa teimosia de não quererem voltar ao estado de sono profundo acompanharam o surgimento dos primeiros raios solares. A consciência parecia estar irritada e os gritos dizendo ser muito cedo para se estar vendo, mas os olhos fizeram pouco caso da pobre coitada e continuaram abertos, mais atentos.

Buscaram então algo interessante ao redor para se fixarem, mas não havia nada que os prendesse tanto. As mãos, suas irmãs, decidiram apelar pra droga mais potente dos últimos tempos, a internet. Foi instantânea a sede por conteúdos imagéticos que fizessem os olhos se fixarem e se entorpecerem. Foram alguns minutos que já estavam satisfazendo a vontade incontrolável deles até que, quando tudo parecia próximo de acabar e os olhos ficarem tranquilos curtindo sua viagem, veio então a dose extra do dia. Dose extra essa que sempre agia pro bem estar de seu dependente químico. Não dessa vez. Os olhos tiveram uma reação adversa á dose extra de seu entorpecente. Deveriam estar de certa forma acostumados pois já haviam passado da conta diversas vezes em diversas outras oportunidades.

Não. Dessa vez a dose extra causou reações adversas não só aos olhos. A overdose foi generalizada. As mãos, suas irmãs queridas, suavam frio e incessantemente, os próprios olhos derramavam lágrimas na tentativa frustrante de fazer aquela viagem ruim passar, os pés inquietos pareciam querer tomar rumos distintos, o cérebro se arrepiava como se estivesse nim deserto de gelo e a alma se contorcia agoniada com o calor de um vulcão vindo de dentro pra fora. Deu pane por completo no sistema até que uma proteção, semelhante a um antivírus, lhe de opções pra sanar o problema:

> Restaurar configurações de fábrica e executar varredura ao reiniciar o sistema central?

> Mover tudo para quarentena?

Álvaro Correia.