Eu Gosto de Basquete Feio (Ou “Adeus Tim Duncan!”)

Eu cansei de ver NBA. Sério. Desde que parei definitivamente de jogar basquete competitivo, em 2011, ver a NBA é um martírio para mim. Dificilmente, nessa temporada de 1230 jogos, temos um jogo disputado, bem jogado pelos dois lados, ou com aqueles highlights monstruosos que gostamos de ver. Raça então, nem se fala. Isso eu só espero de jogadores específicos e nos playoffs. A temporada regular da NBA se resume a 20 jogos bons, que dificilmente são televisionados, e 3 ou 4 times que realmente dão brilho ao campeonato.
Para a grande maioria dos espectadores, o Spurs não se enquadra nesse rol de 3 ou 4 times. Na minha, é o único. O epíteto do basquetebol, para mim, moleque criado no Rio de Janeiro jogando numa federação onde os melhores times eram os que faziam 70 pontos em cima de qualquer adversário sem quicar uma vez a bola no ataque, se chama San Antonio Spurs. Ginóbili e Duncan (desculpe-me Tony Parker) são dois dos meus jogadores favoritos de todos os tempos da NBA. Ginóbili, fácil explicar porquê. O cara é o jogador mais inteligente em quadra, independente dos outros 9 ali com ele, e isso é claro, óbvio e às vezes irritante. Duncan… Talvez seja pelo exato contrário.
Tim Duncan é o jogador mais chato da NBA. Ele não usa roupas extravagantes, não é carismático, não tem uma personalidade magnética, não é atlético, não joga um basquete bonito… Não, o basquete do Tim Duncan é feio feito o meu passado. Bolinha de mid-range na tabela, toco sem pular, 10 rebotes por jogo sem fazer força e passar a bola pro ala depois que ele saiu dum pick no lado oposto. Esse é o exato contrário do que dá audiência na NBA… Mas eu amo. Eu amo como aquele cidadão que parece um “mongol gigante” é imarcável. Como, do nada, ele corta qualquer marcador com suas passadas de tartaruga e quase arranca o aro da tabela saindo meia gilete deitada do chão. Como quantas pessoas devem ter dito, durante ANOS, que aquele moleque que começou a jogar basquete com 14 anos nunca ia vingar no esporte. Como esse moleque deve ter treinado todos os dias da vida dele para ser melhor do que todo mundo, naquilo que todo mundo se esforça só para saber o mínimo.
“The Big Fundamentals” não é reflexo de seu time. Seu time é um reflexo dele. Basta ver que entre 2003, quando David Robinson se aposentou, e 2011 quando Kawhi Leonard foi draftado, o time esteve sempre entre os 4 melhores da NBA sem ter nenhum superstar daqueles que vão ser capa de revista. Timmy tem 2 MVPs, um a mais do que Kobe, mas todos sabemos quem será mais lembrado na história. Aliás, eles têm o mesmo número de títulos também. Foi MVP das Finais uma vez a mais. Também é o líder de pontos pela sua franquia… E ainda é top 10 da NBA em rebotes e tocos em todos os tempos. O Basquete Feio ganha. Tim Duncan ganha. E ganha sem dever nada a ninguém, sem montar Big 3 de salários milionários, sem mídia, sem vender camisa… Ganha porque é o que o basquete tem que ser: O essencial, feito da melhor forma possível.
Hoje, esse marco do basquete se aposenta. O cara em quem me inspirei quando fui chamado de “mongol gigante” e que “por ter começado com 14 anos, nunca daria certo”. De certa forma, ainda me inspiro nele todos os dias de minha vida. Me inspiro em saber fazer o essencial da melhor forma possível, e ter sucesso assim. Em fazer o que a cartilha manda, às vezes, num nível que quem fez aquela cartilha nunca imaginou. Eu acho que o mundo precisa aprender mais com o basquete feio. O mundo tem que aprender e admirar muuuito mais esse tal de Tim Duncan.