Quando a arte imita e mostra o pior da vida

Assustado. É assim que me encontro ao terminar de assistir o filme “Ele está de volta” (“Er ist wieder da”, em alemão). A película escrita e dirigida por David Wnendt é baseada no romance de mesmo nome escrito por Timur Vernes. Na trama, Hitler ressurge na Berlim de 2011, onde o seu nacional socialismo já não mais tem a força de outrora. Além disso, a Alemanha tem como maior símbolo de poder uma mulher, a chanceler Angela Merkel.

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O enredo do filme se desenlaça em meio a piadas e gozações com a possível atuação daquele Hitler. Alguns populares o sinalizam, fazem a saudação nazista, tiram fotos. Algo um tanto bizarro, é verdade. Mas uma verdade que a Alemanha — e não só ela, mas todo o mundo insiste em negar — a xenofobia, o racismo, o pensamento retrógrado de uma raça superior… enfim, valores que a humanidade insiste em se esquecer mas figuras como a família Bolsonaro, Donald Trump e tantos outros radicais e conservadores insistem em gritar na mídia. Aliás, a mídia é abordada de forma brilhante no filme, fazendo o papel da difusora desses discursos, sendo a favor de tudo aquilo que traz audiência. Imagine Hitler no século XXI sendo dirigido por Goebbels? Pois bem, a pequena empresa de TV do filme faz bem esse papel, explorando o sensacionalismo e todo aquele sentimento escondido de saudosismo de uma direita populista adormecida (mas não extinta, como o filme também nos mostra) desde o fim da Segunda Guerra Mundial.

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Observar aquele homem de bigode estranho andando em meio a multidão sendo ovacionado como alguém especial realmente nos traz insegurança. Medo de onde o mundo pode chegar. Temor de até onde a piada é só uma brincadeira de mau gosto. Porém, em meio a todo esse alarde, pouquíssimas pessoas o afrontam e dizem que aquilo é um absurdo, uma falta de respeito tanto com as suas tantas vítimas apagadas da história quanto com a democracia alemã — sendo esta criticada por ele como falha e fraca, causadora de toda a crise. Para ele, a “sua democracia” é a solução. A mão de ferro que esmaga a opinião dos demais, a voz final que decide quando o carrasco desce o machado.

Não precisamos necessariamente de um filme para atestarmos o avanço deste fenômeno apavorante por todo o mundo. Ligamos a TV, abrimos os websites, lemos nos jornais… a onda do conservadorismo está tomando seu lugar de volta nos lares e isso preocupa. Há uns dias atrás foi veiculado um vídeo de um humorista questionando eleitores simpatizantes de Donald Trump que remetem muito a esse tipo de sentimento: uma vontade de impor ao mundo suas vontades e anseios, acreditando que só assim “a América será forte de novo”. O que causa espanto são essas vontades: excluir negros e imigrantes, limitar direitos da população LGBT, liberação de armas, acreditar que ser presidente é uma dádiva apenas permitida aos homens. E tantos outros retrocessos que doem o corpo só de pensar. Trazendo para as terras tupiniquins, podemos observar essa doença se espalhando por todas as classes. Temos justiceiros que punem negros e pobres sem nenhuma prova concreta, os chamados “homens de bem”. Que bondade é essa? É, eu também não sei. Temos policiais que atiram primeiro e perguntam depois, políticos como Jair Bolsonaro que faz homenagens em plena TV aberta para um torturador da ditadura militar — mancha jamais esquecida de nossa história. Temos o machismo e a homofobia que fazem vítimas diariamente em troco de nada. Temos pastores corruptos que sugam até a última gota de seus fiéis. Falsos profetas, seres dos mais profanos. Temos a bancada da bala, a bancada ruralista, a bancada evangélica. Temos vítimas fatais como a irmã Dorothy Stang, que lutava em prol da população de Anapu. Temos também neoliberais que só visam o lucro, não importando as condições de quem o produz. Escravidão. Sim, temos escravidão em pleno século XXI. Nós, último país a aboli-la em 1888, e tantos outros países ainda temos esse problema. Tantos problemas…

Se formos nos atentar, estamos rodeados de comportamentos que Hitler nenhum colocaria defeito. As circunstâncias são diferentes, mas o que podemos traçar em líderes assim são seus discursos arraigados a um sentimento adormecido em grande parte da população. No final do filme, Hitler em um diálogo impressionante mostra para Sawatzi que ele não morrerá com balas, pois esses ideais não foram propostos por ele, e sim pela população, que em 1933 simpatizou-se e se identificou com seus discursos — o que o levou ao poder e ao início do Terceiro Reich. Ou seja, que Hitler é um grande vilão da história é bem verdade. Mas, seria mesmo ele o grande causador de todo o holocausto? Ou seriam as palavras dele a munição certa para as armas esvaziadas que se encontravam nas pessoas? Essas perguntas podem convergir para um único ponto: o pensamento coletivo a partir do discurso.

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Hoje, dia 26 de agosto de 2016 podemos notar claramente como um discurso sujo difundido a partir da mídia pode derrubar uma democracia. Estamos há um longo período observando os trâmites de um impeachment dentro de nossa casa. Aqui juízes permitem escutas ilegais em telefones de ninguém mais, ninguém menos que a presidenta da república. Aqui toda a mídia manipula a opinião pública com mentiras ou meias verdades. Derruba líderes e coloca golpistas no poder — isso não é novidade pra ninguém.

Imagine, se Hitler até hoje tem adoradores em todo o mundo, o que discursos assim não podem causar no mundo? Pois bem, é disso que mais tenho medo…