O Filho da Professora

Viagens no tempo e no espaço.


O homem com o pau na mão lá gritava que não dava para descer mais com as ovelhas, e o condutor do jipe da câmara, com a cabeça espetada para fora da janela, lá avisava que mais valia morrerem as ovelhas do que os professores que trazia consigo.

Oh homem, ninguém faz camisolas com professores. Desça lá o monte.

Mas isso não é 4x4? Desça mas é você.

E ficavam ali numa chega de bois à espera que um dos dois desse a parte fraca. E eu, de ranho seco no nariz, na companhia da minha querida mãe e dos seus camaradas professores, ficava ali dentro daquela carcaça de metal a cheirar a peido, tabaco e leite com chocolate, abstraído dos acesos debates acerca do calor, com os olhos postos na pequena escola primária que se via lá ao longe em cima do monte, a pensar se a Isabel iria mostrar as mamas aos rapazes esta semana.

A estrada era realmente pequena, muito muito pequena. Aliás, só era uma estrada por exclusão de partes. E era sempre o mesmo pé demónio, mais ovelha menos ovelha, mais boi menos boi. Um jogo mais de paciência do que de argumentação que, normalmente, por ser mais tolerante para as intrigas humanas do que os animais, o jipe desempatava, permitindo-nos sair daquele tribunal de casmurros em direção à aldeia de Lomba de Arões, onde éramos recebidos sem entusiasmo por galinhas obstinadas, cães cheios de peladas e panças ao fresco.

E lá saíamos nós do jipe — eu, já sem ranho seco no nariz, a minha mãe ainda de lenço de papel na mão, os amantes Iolanda e Lionel, e a Senhora Que Tinha Um Corvo Que Falava — , todos carregados de malas e sacos plásticos com tupperwares a cheirar a rojões e panados em direcção a um casebre de cor vermelha onde vivíamos entre domingo à noite e sexta-feira à tarde.

E eu, um semideus nascido do ventre de uma professora, alvo de inveja por parte dos alunos, alvo de cobiça por parte de alunas, via-me uma vez mais triunfal na minha combinação fato de treino e botas, equipamento mais do que adequado para garimpar coisas fantásticas naquela arena de matas e quelhas.

Por onde andaste, Álvaro José?

“Não sei”, respondia eu todos os finais de tarde com o fato de treino exponencialmente esfolado nos joelhos, com sangue a escorrer um pouco por todo lado e com uma máscara de terra e mentira no focinho. Claro que sabia. Tinha até os planos bem definidos. Tecia-os de manhã, com a boca cheia de pão com manteiga, observado pelo corvo ressabiado aprisionado na gaiola ao fundo da mesa que me insultava como podia com as poucas palavras que tinha aprendido.

Olá
Papa
Até já
Boa noite

Não vos contarei todas as aventuras com receio que não as recebam com o mesmo entusiasmo que eu. Mas, e que a minha mãe me perdoe, darei-vos uma explicação um pouco mais elaborada do que a que lhe dava: Andava por aí. Coisas de catraio como ficar a observar azeitonas numa Oliveira plantada junto a um tanque de lavar roupa.

Há, contudo, um episódio que me ficou na mente e que interessa a esta história.

Olá

Num certo dia deparei-me com uma coleção de pedras num parapeito de uma janela. E que fiz eu? Roubei uma. A maior. Não por me parecer valiosa mas porque sim. Achei que devia ser roubada e isso é explicação que baste. Ressalvo que nunca tive nem tenho impulsos de larápio nem acredito na predestinação. Aliás, é com algum orgulho que declaro que aquela pedra foi a única coisa que roubei em toda a minha minha vida, pelo menos até ao momento em que termino esta frase.

Acontece que mais tarde, enquanto brincava com os Lego na mesa da cozinha, o corvo entrou em histerismo. E quando estava prestes a atirar-lhe com um garfo, reparei num anúncio de um relógio que passava na televisão. Estava lá uma pedra igual à que tinha roubado. E descobri o seu nome: Quartzo. Que palavra exótica e valiosa com um z misterioso entre um simplório T e um expressivo O. Quartzo. Usavam aquilo para relógios caros, devia ser mesmo valioso.

Papa

Nos instantes seguintes a ganância subornou-me a inocência e empurrou-me para uma demanda. Tinha de descobrir quanto me poderiam pagar por aquilo. O entusiasmo durou pouco porque o Zé, meu fiel companheiro de aventuras, disse-me que aquilo não valia um chavo. Merda para o Zé, Merda para o anúncio, merda para o relógio, merda para as pessoas que coleccionam pedras, merda de pedra. Furioso, guardei a pedra num canto qualquer e fui para o mato com o Zé, apanhar grilos. A Isabel mostrava as mamas em troca de grilos. Bem mais valioso do que aquela pedra inútil.

Até já

Hoje, preso num escritório, por entre frases publicitárias, recibos verdes e convívios fugazes no facebook, procuro nas palavras que debito num documento, a que curiosamente chamei “Recreio.doc”, algum vislumbre de liberdade, atravessando o tempo e o espaço às custas do poder desta pedra de merda que trago sempre comigo.

Boa noite

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.