Curtindo um momento ao lado do medo

Há quem goste de vivenciar experiências apavorantes, trazer à tona o mais antigo dos sentimentos, seja através da leitura (método pelo qual eu recomendo) ou qualquer outra mídia, como filmes, quadrinhos ou músicas. E quando digo “apavorante”, não me refiro àquele friozinho na barriga durante um salto de bungee jump ou uma volta naqueles brinquedos malucos dos parques de diversões da vida, fazendo as pessoas vomitarem e perderem os celulares e chaves. Não, nobre leitor. Me refiro àquele calafrio na espinha depois de imaginar algo que o fará ter pesadelos por dias, ou ainda a vontade já incontrolável de ir ao banheiro no meio da madrugada, mas tendo a certeza de que nada no mundo irá tirá-lo debaixo das cobertas, pois o que o aguarda no caminho entre a cama e a privada é incerto e pavoroso. E quando o sentimento passa a ser mais palpável, sabendo que as consequências daquilo que você acabou de ler/ver/ouvir podem ser reais para qualquer pessoa à qualquer momento, e ninguém está a salvo de nada disso. É desse tipo de pavor que irei comentar nos próximos minutos.

Por outro lado, existem também aqueles que preferem externar emoções mais radiantes e confortáveis, por assim dizer, e não fazem questão de ir atrás do medo como entretenimento pelo simples fato de que é algo que as incomoda. E se incomoda, qual o sentido de procurar senti-lo? Se esse for o seu caso, talvez o restante do texto não fará tanto sentido para você. Mesmo assim, será um prazer tê-lo(a) conosco.

Causar o sentimento de medo ao leitor, no mais amplo sentido da palavra, é algo que, como escritor, considero bastante difícil de ser realizado. Mas quando alcançado, a sensação é bastante prazerosa. Em alguns casos é até mais aprazível do que o momento da elaboração e da escrita do conto em questão. O medo é algo pessoal. Muitas vezes a fobia de um indivíduo com relação ao mesmo evento pode ser completamente diferente da sua pelo simples fato de que não existe ninguém igual a ninguém. Vidas diferentes, vivências e sensações divergentes. Mas o medo também pode ser abstrato, repentino, contínuo.

É necessária toda uma preparação tanto para quem escreve quanto para quem ler, e as chances daquela experiência ir por água abaixo por motivos adversos são relativamente grandes. A força de um bom conto de terror está fadada a ser completamente destroçada por diversos motivos.

Só para citar alguns exemplos rapidamente:

> O leitor pode ter uma ótica diferente dos fatos ou experiências passadas destoantes da trama e/ou dos personagens, fazendo com que isso o afaste de vez do clímax;

> Diversos fatores externos podem contribuir para que o objetivo da leitura, que é trazer o sentimento do medo à tona, seja completamente perdido;

> A expectativa gerada através daquele conteúdo talvez tenha sido tão grande que, no final das contas, o leitor mais se decepcionou do que, de fato, aproveitou a experiência, consequentemente julgando-a bem abaixo daquilo que esperava;

É claro que todos esses exemplos são bem abrangentes e, de certa forma, até genéricos, podendo ser aplicados em absolutamente qualquer tipo de mídia e gênero. Mas acredito que para a proposta que nós, autores de obras de terror, procuramos, essas e outras condições tendem a ser mais contusivas.

Como regra geral, todo mundo sabe que uma das maneiras mais eficientes de se apreciar uma boa obra do tipo é estando sozinho num ambiente sem (ou pouquíssima) luminosidade e, claro, que seja também silencioso. O ser humano tem essa característica de insegurança e repulsa pelo escuro, principalmente se sozinho, pois não somos criaturas condicionadas para sobreviver ao breu ou desamparadas.

Portanto, para que se tenha a melhor das experiências com o medo numa obra literária, o leitor precisa buscá-lo e estar preparado para senti-lo, e qualquer outro motivo que contribua para a distração daquele momento arruinará a coisa toda. Alguns dizem que para um bom autor de terror não existem desculpas como, por exemplo, que seu livro deva ser lido com a pessoa sozinha, na calada da noite, sendo auxiliada somente por uma fagulha de luz de uma vela. Não, sua criatividade e habilidades de escrita devem conseguir extrair o medo do leitor independente de como sejam as suas circunstâncias no momento da leitura.

Apesar de muito querer chegar a esse nível, não sei se concordo com essas pessoas que dizem isso. Não porque meus textos sejam ruins e que não causem medo em ninguém (ou talvez seja exatamente isso, quem sabe), mas pense comigo, se os livros desse tal autor que consegue tamanha façanha já são tão bons por si só, sem precisar que façamos o mínimo de esforço para aproveitar melhor suas histórias, imagine quando lidos dentro do processo sugerido logo acima. Tenho certeza que a experiência será muito melhor. Ou muito pior, se é que me entende.

É claro, existem ocasiões ilimitadas onde podemos definir o sentimento de medo, e em algumas delas todo esse ritual costumeiro talvez não faça tanto sentido assim. Pode ser até mesmo que nem seja necessário. Tememos o real e também o irreal, e como seres humanos, o pânico pode vir à tona independentemente da situação que nos encontramos. Provações calcadas em nossa realidade em que nos enxergamos no lugar da vítima com mais facilidade, fazem com que as emoções fluam de maneira mais intensa, pois estamos propensos a passar pela mesma situação e sofrimento de maneira real. Mas essa é uma outra história e será abordada futuramente em outro artigo.

Portanto, caro leitor, adquira o hábito de aproveitar melhor suas leituras de terror acostumando-se a lê-las estando sozinho e de preferência à noite, sem que haja interrupções. Se não for possível, procure você mesmo um jeito que melhor se adapte ao seu cotidiano. Não é tão difícil achar uma maneira de fazê-lo. Dessa forma, te garanto que sua experiência será muito mais proveitosa. Uma boa história pode se tornar muito melhor, em todos os sentidos, se você estiver no clima para absorvê-la.

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Originally published at alvesazziago.wordpress.com on February 17, 2016.

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