Relacionamento aberto x relacionamento fechado

Primeiro — FORA, ESTADO BURGUES!
Segundo, quero deixar claro que não pretendo com esse texto “empurrar goela abaixo” como vocês dizem, o relacionamento aberto em ninguém. Contudo, pretendo aqui pontuar a forma simplista e pejorativa de como esse assunto vem sendo tratado ao modo conservador e intolerante por pessoas que são da famigerada esquerda.
Entendo as formas de relacionamento como construção social e não como algo engessado no tempo ou intrínseco ao indivíduo.
Enfim, já faz um tempo que percebo quando leio ou escuto de pessoas de esquerda — na qual faço parte, porém não me incluo nesse discurso no qual pretendo apontar aqui — uma defesa que chega a ser desesperadora e até deplorável da premissa reacionária e tradicional das relações amorosas muito conhecida pela direita conservadora. Ora, é errado que pessoas de esquerda prefiram manter relações nos moldes tradicionais monogâmicas e/ou fechados? Absolutamente. Claro que não!
Contudo, o meu ponto aqui é quando essa defesa é feita de forma desleal, de modo que desconsidera todas as outras formas de relacionamentos em detrimento de uma única maneira de se relacionar, nesse caso, refiro-me a relação monogâmica. Como se não bastasse o fato desse discurso mutilado das relações não considerar que somos seres complexos — já que o mesmo pretende restringir a análise a uma formula pronta que vista igualmente a todos — essa defesa platônica da monogamia vem acompanhada de diversos adjetivos pejorativos para pessoas que compartilham de uma outra concepção de relacionamento. Os discursos no qual ouvi muito das pessoas foram: relacionamento aberto = “estar solteiro” (???) = “bagunça” (???)… Ou que pessoas adeptas a um relacionamento aberto são: “embustes”, “corno gourmet”, “liberal”, “individualista”, “egoístas”…. — a lista de argumentos que não fazem o menor sentido é enorme, então vamos nos restringir aos que achei mais gritante — assim o que eu tenho a dizer sobre essas visões completamente equivocadas e preconceituosas é:
(1) - Se uma pessoa mantém um relacionamento aberto com a outra isso significa que ambas devam ter o consentimento quanto ao funcionamento dessa relação — ou não caracteriza um relacionamento aberto — , ou seja é fundamental que todos da relação estejam favoráveis a essa forma de relacionamento e as regras compostas nele.
(2) - Se uma pessoa diz estar em um relacionamento aberto, porém o seu parceir@ não tem consentimento dessa forma de relação isso, novamente, NÃO CARACTERIZA UM RELACIONAMENTO ABERTO. É desleal utilizar desses casos para totalizar essa forma de relacionamento. Até porque se vocês jogarem no google: “Marido encarcerou a mulher” irá constatar que na maioria dos casos diz respeito a relacionamentos “fechados” e não é por isto que eu ou você deva partir da premissa totalizante que todos os relacionamentos “fechados” são abusivos. (não estou desconsiderando o MACHISMO aqui, porém não é esse o meu ponto em questão).
(3) - Ter um relacionamento aberto NÃO É O MESMO QUE estar solteiro, ou não seria relacionamento, né amores? Parece óbvio, mas para muitas pessoas essa percepção é tão “dolorosa” que parece até impossível. (risos,risos de nervoso).
(4) - Relacionamento aberto NÃO SIGNIFICA ausência de amor — pelo amor da deusa ou do que existir aí, apenas parem!!! — , muito pelo contrário essa forma de relação exige que além de muito amor exista algo pouco conhecido para alguns — talvez — , chamado CONFIANÇA e LEALDADE. Ou seja, em um relacionamento aberto o diálogo é imprescindível — o que deveria ser em todos os modelos de relação, não é mesmo?
(5) - Não existe um padrão na forma de relacionar-se nem dentro do modelo “fechado” de relação muito menos nos modelos “abertos”. Logo totalizar todos os relacionamentos abertos a partir de 1 único modelo que você conheceu não funciona, tá? Isso não existiu nem nos primórdios!
(6) - As formas de relação foram construídas historicamente. E no caso da monogamia, não é novidade que essa foi por muito tempo utilizada como forma de solidificação do patriarcado (ainda hoje tem os que utilizam desse meio).
(7) - E por último, a tentativa de alguns da “esquerda” de querer demonizar tal forma de relacionamento aberto e enaltecer os modelos padrões de relação nada mais é que a mesma premissa intolerante, tradicionalista da direita conservadora. Isso caminha em sentido oposto a pluralidade e procura o utópico e inexistente “ser universal”. Fulaninho quer ter um relacionamento fechado pois não consegue ter uma relação aberta? Ok! MAAAS, não é necessário e muito menos possui cabimento que a partir disso “fulaninho” desmereça outras formas de relacionamentos que lhe fogem a percepção.
Antes de concluir, ressalto: o que faz com que a forma que se leva um relacionamento seja abusiva, egoísta ou prejudicial não é necessariamente o modelo de relação adotado, mas sim a maneira como as pessoas se compartam dentro dos mesmos. Finalizando, é importante não esquecermos que o que pode levar a esses acontecimentos é bem mais estrutural, (como o machismo) do que pessoal (modelo de relação). Então, ambiguindos, antes de criticar qualquer coisa procure entender afundo sobre a mesma. Faça esse favor para você e para a humanidade. Uma coisa que é estranha para você não faz com que de fato essa coisa seja estranha em relação ao resto do universo. O mundo não gira ao seu redor, sua forma de viver não é a única. Reflita sobre o que é diferente, mas não torne o diferente uma aberração.
Por fim, viva e deixe viver.
- ALVES, Débora.
