O UIVAR DOS LOBOS
Passei dias fazendo planos para a sexta-feira a noite. O grande dia chegou, me vi animado, muito empolgado e ao entardecer tratei logo de correr para casa. Fiz pouco caso da tempestade que fazia, corri na chuva, sentindo a água escorrer por seu rosto, fiquei até mais feliz, pois lembrei-me dos tempos de moleque em que ficava inquieto quando chovia, satisfazendo-me somente quando a minha mãe me deixava sair para brincar fora de casa, passava horas correndo descalço na terra, sentia o aroma emanava do solo quando a água caia, nem as chuvas de pedras que sobre as minhas costas me parava, me sentia como um pássaro liberto da gaiola, voando e cantarolando na chuva.
Já estava a uns 50 metros de casa, quando percebi que havia faltado luz. Não havia nada que me assustasse mais do que uma casa escura e solitária, o barulho do silêncio das ruas que deriva da falta de energia era ensurdecedor, nesse momento me senti como um pássaro liberto após crescer no cativeiro, que após ser solto, que mal sabe voar, não sabe como viver no mundo, que não aprendeu onde encontrar seu alimento e acaba por morrer de fome, tudo o que mais queria era voltar para a gaiola.
A inquietação tomou conta. Mal adentrei a casa e logo tratei de sair, sai e corri, corri na chuva, corri como se não houvesse o amanhã, passei pelo jardim e entrei no bosque. O bosque, que durante o dia de sol exalava incomensurável beleza, com o perfume das flores, o cantar das aves e seu vasto verde contrastando com o colorido da primavera, tomava-se pela escuridão e silêncio, o único som que conseguia ouvir era o uivar dos lobos e o único cheiro que conseguia sentir era o do medo, medo dos lobos.
Mesmo com o bosque tomado pela escuridão de uma noite chuvosa e de poucas ou nenhuma estrela, consegui ver os lobos devorando um pobre coelho, impiedosamente e insaciavelmente. Consegui ver o sangue nos grandes olhos negros dos lobos. Os lobos mal regozijaram e já começaram a uivar procurando por uma outra presa, com o seu instinto selvagem e sua insaciedade.
Pus-me a correr, corria cada vez mais rápido, como nunca corri antes. Já exausto e ofegante, mesmo não escutando mais o uivar dos lobos, mesmo não os vendo há muito tempo, ainda os temia, pois vi a crueldade com que dilaceram a presa.
Sentei e fiquei a observar, em estado de constante vigília todos os animais que via. Temia que todos os animais pudessem ser tão irracionais e cruéis quanto um lobo. Parei, fiquei estagnado, tomado pelo cansaço e pelo sono, sabia bem que no estado em que me encontrava, seria uma presa fácil. Economizava todas as energias que me restavam, com o ímpeto de fuga da cólera dos animais.
Sem condições de seguir sozinho, estava perdido no bosque, me encontrava em profundo desespero, sem norte e tudo o que mais queria era voltar para casa. Mas a quem poderia recorrer para me ajudar, se temia que todos os animais agissem como lobos? Ponderei por horas, até que um pequeno cão veio calmamente ao meu encontro, abanando o rabo em um sinal de compaixão, sentou a cabeça ao meu colo e ficou me observando, o cão que sentia que estava perdido e desesperado, apenas ali ficou pacientemente esperando que eu percebesse que não se tratava de um lobo, me trazendo conforto.
Ainda meio desconfiado e arisco coloquei a mão sobre o cachorro, lhe fiz algum carinho, como singela forma de retribuir o esforço que o pequeno bicho fez esperando pacientemente, dizendo-me muito sem proferir uma palavra sequer. Nesse momento eu percebi que que nem todo o animal era tirano.
Me motivei a continuar a jornada. Caminhei, caminhei por horas, usando meus sentidos e instintos para tentar achar o melhor caminho, sem pestanejar, arrumando forças na companhia do cão.
Após longo trecho percorrido, me vi em uma encruzilhada, me senti perdido novamente, sem saber qual rumo tomar, com medo de escolher um caminho que não me levasse a lugar algum. Tudo o que eu mais queria era ir para casa, nessas alturas, nem ligava mais se havia ou não voltado a luz.
Então, de forma repentina, surge no meio da névoa, voando, um ser esplendoroso, que me dirige a palavra:
- O que faz aqui, pobre homem?
Ainda meio abalado pela difícil decisão que havia de tomar referente ao rumo que seguiria na encruzilhada, mantive-me em silêncio.
Insistindo me questiona novamente:
- Por que me olha assim? Como veio parar aqui?
Mesmo assim, me abstive, mantendo-me em silêncio.
Então o ser em seu ultimato, me diz:
- Diga-me, por que me olha assim? O que te apetece? Meu tempo está acabando. Por que não segue sua jornada se tu já conhecesse o caminho? Mesmo que não o conhecesse, poderias voltar e tomar outra direção. Ora, levanta-te e anda homem.
Da mesma forma com que apareceu, ele sumiu novamente em meio a névoa.
Por um momento esqueci de tudo, esqueci dos lobos, que estava perdido, que estava chovendo, que ventava e fazia frio. Fechei os olhos e apenas tratei de sentir e escutar, escutar o barulho da chuva, sentir o cheiro do solo, sentir novamente a água escorrendo na sua face, podia escutar até o meu coração bater.
Aquelas palavras ficaram martelando em minha mente, “Levanta-te, se tu já sabes qual é o teu caminho, porque continua aí parado?” Enfim percebi que está muito próximo de casa, que já sabia o caminho e o sol está a raiar e resolvi seguir o conselho daquele ser, ainda que com desconfiança e incerteza comecei a caminhar. Certo de que escolhi o melhor caminho, mas com consciência de que se não fosse, sempre poderia retornar à encruzilhada e tomar a outra direção.
Após longa caminhada cheguei na cidade, as luzes amarelas que iluminavam as ruas davam um tom de sépia, como das fotografias antigas, que trazem consigo conforto, calmaria e boas lembranças.