Bloqueio criativo

Eu tenho estado num bloqueio criativo esses dias. Eu criei um blog em junho, e comecei a escrever ali. Era bom até, acho que eu tinha me encontrado na época. Aí agora eu me perdi um pouco. Sabe quando tu acha que vai escrever alguma coisa e pensa que nada que tu escrever vai ter serventia alguma? Pois é, aí eu escrevia sobre, sei lá, sobre meus motivos de raiva, sobre eu não me sentir bem comigo mesma, aí algumas pessoas falavam “nossa, que legal” bom, mas tá cheio desse tipo de coisa por aí né. Aí eu pensei “eu deveria escrever um conto, talvez um conto erótico”, mas não saiu. Ahh, todo mundo parece escrever melhor do que eu, aí eu parei. Não consegui mais me expressar. Sim, pode fumar, eu sou fumante também. Não, aí tá, aí eu acho que foi porque minha vida tá uma bagunça. Hospital virou minha segunda casa agora, ahahahaha. É. Não te contei? Então deixa. Não é assunto pra agora. Vou no banheiro.

Sim, eu sei. Obrigada. Acho que todo mundo é, né? De alguma forma é. Mas eu seria mais se eu não fizesse isso, se eu simplesmente aceitasse o elogio. Eu gosto de elogios, não faz essa cara. Mas ai, é sempre isso, e me desculpa, mas eu sei que eu seria mais linda se eu agisse como uma. Digo, se eu, se eu, sabe? Se eu fosse aquelas pessoas carentes que “nossa como eu sou cheia de mim” e saísse com qualquer um, aí super não é errado não, é só que eu não sou assim. Aí a pessoa “nossa como você é linda” e eu “nossa, verdade, faz 3 meses que eu não sei o que é sexo vamos lá pra casa” e nem daria, minha casa tá toda bagunçada agora.

Não, não, sua casa não é bagunçada perto da minha casa. É que eu comecei a trabalhar aí eu chego em casa e nossa, eu durmo em cima da minha mochila e das minhas roupas, porque não dá, porque eu chego em casa e “ah, amanhã eu vou voltar praquele hospital de novo”, mas não é isso, é que eu bagunço a casa toda do nada de vez em quando. Tipo, tem dias que eu chego em casa, aí eu vou fazer comida, aí eu faço comida e deixo a louça lá, tá. Aí eu vou fazer comida de novo, aí cai pedaço de comida no chão “deixa aí, depois eu lavo” aí fica lá alguns dias, fica lá no chão mesmo, foda-se. Aí depois eu “ah eu tenho que me arrumar pra amanhã” aí saio tirando roupas do armário e tocando pela casa. Mas não é porque eu sou porca, porque nossa, tem dias que eu fico “deu, cabou essa sujeira, essa nojeira” daí eu pego uma esponja e saio lavando o chão com alvejante. Ah, falando nisso, tem até um mau agouro relacionado com isso, que é “se um cara vai lá em casa e eu começo a limpar a casa vai dar má sorte” e pode ver, é sempre assim. O cara “deita aqui, vamos ver um filme” “não, esse chão tá um lixo, vou varrer”. Ah, sei lá se é por isso que os caras não vão mais lá, vai saber, nem deve ser, mas é mau agouro igual. Essas coisas que a gente sabe que não pode fazer de novo em relacionamento porque sabe que vai dar errado, né? Não precisa me abraçar. Ai, não, tá, só deixa eu baixar minha saia.

Aí… Do que eu tava falando mesmo? Me empresta o seu isqueiro? Bloqueio criativo. Como é que as pessoas um dia param e pensam “nossa, isso aqui que eu escrevi vai mudar o dia de alguém”, ou nem pensam, eu nem pensava, ou eu pensava? Acho que eu pensava. Mas aí eu via que tanto faz. Eu tenho um monte de cadernos lá em casa, e esses dias eu estava olhando um que descrevia meus sentimentos ardentes por alguém. Eu olhei e “nossa, eu senti mesmo isso por alguém? Que loucura” não sinto mais. Não sei mais o que é isso, não acho que eu vou saber tão cedo. Bom, aí passou. Eu parei de falar com essa pessoa esses tempos, e aí passou, o sentimento, essas coisas, foram substituídos por outros piores. Aí do que adianta mesmo? A pessoa vai lá, se apaixona, acaba e quebra a cara. É por isso que eu acho que qualquer coisa que eu escrever agora não vai adiantar nada. Que sentimento simplista. Eu escrevo essas coisas e eu vou acabar numa UTI sozinha. Eu falo muitas coisas também, a maioria das coisas que eu escreveria eu acabo falando pros meus amigos, e eu já mudei a vida, ou algum momento de muita gente, mas agora elas me olham e falam “nossa, você anda tão isolada, você nem fala mais comigo, a nossa amizade não é mais a mesma” então do que adianta? Aí por isso que eu penso em morrer às vezes, seria só um deu, cabou, você tentou. Mas aí quando eu estou com o veneno na boca eu penso “não, eu posso muito mais, eu vou ser muito mais” essas coisas que eles falam naquelas palestras de autoajuda que eu acreditei muitas vezes.

Nossa, que papo regresso. Aaaah, que droga, meu creme de pentear importado acabou. Aí as pessoas olham pra meu cabelo, elas vão olhar pro meu cabelo e vão falar “que raiz preta enorme nesse seu cabelo loiro, que coisa estranha”, eu odeio isso. Eu nem tenho dinheiro pra sustentar o meu cabelo, que coisa horrível, as pessoas notam muito. A minha maquiagem tá acabando também, chega essa época e as coisas que eu comprei no Uruguai acabam, que vida. Daí eu vou escrever sobre isso? Não, né. Vou chegar lá e “que época terrível, meu xampu importado acabou” que coisa mais adolescente de classe média alta, que coisa de revista de adolescente. Ah não. Mas são coisas. Se eu pudesse eu iria ficar lá na minha avó cuidando dela enquanto ela está aqui, mas não, universidade. Eu tenho que ficar provando o quanto eu posso ter visibilidade, pelo menos nisso, mas será que é tão importante assim? Eu me pergunto. É porque eu gosto de me cuidar também. Eu gosto de me cuidar, não é por ninguém, aí meu creme acaba, aí eu não posso me cuidar tanto assim. Às vezes parece que ter um creme pra pentear que deixa seu cabelo divino e a possibilidade de poder jantar fora num restaurante caro faz com que a vida fique mais fácil. Faz com que eu saia do hospital e tenha uma vida pra sustentar, e aí eu posso ser igual essas pessoas famosas que só utilizam da própria vida pra fazer arte. É. Que diferença faz ter uma vida amorosa de bosta se eu posso almoçar num restaurante caro? Aí as pessoas pensam “nossa, que vida desgraçada, nossa, que roupa bonita”, é isso né, isso te dá um poder enorme.

Põe uma música aí. Não muito alto. Qualquer uma, põe uma que tu goste, isso. Bah, bem massa. Eu tentei começar a tocar teclado esses tempos, até consegui, mas aí me deu vontade de parar do nada, mas aprendi umas músicas. Parece que eu tenho sempre uma desculpa pra parar de fazer as coisas, largar projetos, entregar trabalhos atrasados. Não é isso. Tá, talvez seja desculpa, mas eu não sou passivo-agressiva nem nada, é só que minha cabeça para de querer funcionar. Que horror. Parece que eu sou preguiçosa e eu não sou. É que eu estou lá, fazendo as coisas e aí eu recebo uma ligação “seu avô teve AVC”, aí pronto. Acabou meu mês. Que raiva da minha vida. Mas eu ando tendo uns sonhos muito estranhos, não dá nem pra acompanhar os significados. E eu ando sonhando muito com uma pessoa ultimamente, eu não queria. Lá em casa eu tenho um livro guardado que eu deveria ter dado de presente, não vou dar, não tenho coragem. Mas está lá. Junto com aquele sentimento de que eu não quero tentar lutar por alguém de novo, porque simplesmente eu não tenho mais esperanças de que algo vá da certo, é sempre a mesma história. Ah, sim, talvez eu esteja certa mesmo. Queria não estar. Mas esperar também não vai dar em nada, eu sei disso. Não estou esperando nada acontecer também, eu acho. Mas os sonhos. Eu sonhei com algo que queria dizer que talvez minha vida amorosa vá melhorar, tu acredita? Esses dias eu escrevi um baita texto, sei lá, pra puxar conversa? Mas não mandei, capaz da pessoa ainda me achar burra. Burra não. Não sou burra. Mas vai que né. Será que eu só quero alguém pra me consolar? Alguém pra conversar comigo de noite, quando eu chego do trabalho?

O celular tocou.

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