Estranho

Discutiam no ponto de ônibus em voz alta, despretensiosamente. Jonas, solteiro, chorava por todas as paqueras que tinham algo melhor para fazer do que ir para a cama com ele. Átila e Rubens, namorados, estavam num impasse: o primeiro esperava por um ônibus que deveria passar em menos de quinze minutos enquanto o segundo queria uma rapidinha; deveriam correr o risco de perder o ônibus?

Jonas queixava-se de não ter opção disponível:

— A vida é curta e as chances são poucas. Se eu fosse vocês, já estaria pelado na cama.

— Não é tão fácil — retrucou Rubens. — O Átila não pode chegar em casa tarde mais uma vez.

— Eu não vejo problema — disse Átila. — Você mora aqui do lado, a gente pode ir e voltar a tempo do próximo ônibus. Não me importo de chegar em casa meia-noite.

Isso já deveria ser o suficiente para convencer Rubens, mas o rapaz parecia mais preocupado com o fato de que o namorado não teria uma noite completa de sono se fosse para casa com ele. Jonas bufava de impaciência.

Seguiram nesse impasse, o casal falando explicitamente sobre sexo anal no tom mais alto de voz enquanto a terceira roda se lamuriava por não ter ninguém para aproveitar todo o trabalho que ele teve enquanto se depilava naquela tarde. Mal perceberam o moço que havia chegado no ponto havia pouco tempo e esperava perto deles, ouvindo toda a conversa.

Notaram que estavam gritando intimidades ao verem que o estranho prestava atenção na conversa. Sujeito parrudo, cara agressiva, estranheza no olhar. Todos começaram a falar mais baixo, assustados. O medo de sofrerem um ataque preconceituoso era etéreo, surgira do nada, mas pesava no ar.

Resolveram mudar de assunto pois não queriam a atenção dele, mas era tarde. O homem se aproximava dos três com a certeza impressa em cada passo, decidido a fazer o que queria fazer. Chegando perto, ele falou baixinho para o casal:

— Vocês topam algo a três?