Carta ao meu filho. (Se um dia ele vier)

Se um dia eu tiver um filho, não vou alimentar a falsa ilusão de que ele será igual a mim. Desde o cabelo, a cor da pele e os olhos, até o mais profundo de seu ser, desejo que ele seja diferente. Não que eu seja ruim, mas porque quero que ele seja melhor. Se um dia o acolher em meus braços, espero estar pronta. Não lhe darei um quarto com coisas inúteis, pintado de cor igual, cheio de badulaques e sugestividades. Mas ninarei seu sono em um lugar simples, necessário, abarrotado de amor, colorido de boas energias. Quero ensiná-lo a dar valor ao que não tem preço.

Serei convicta de que não há brinquedo no mundo que se iguale a sensação espontânea do brincar, lhe ensinarei sobre bichos, plantas e gente. A julgar pelos amigos que venho plantando e cultivando, ele estará rodeado de boas pessoas e corações iguais ao dele. Lhe falarei sobre o mundo, de uma forma verdadeira, porém otimista. Quero que ele conheça frutas pelo sabor, sinta a textura das plantas, tome um banho de chuva, conheça o mar; e assim lhe ensinarei sobre a importância de cuidar do planeta em que vive. Lerei uma história a cada noite, e quando os livros não forem suficientes, juntos criaremos universos e novas histórias. Quando ele me perguntar quem vive no céu, lhe falarei sobre uma força maior que nos guarda, e a quem devemos ser gratos. Agradecer, preciso ensiná-lo sobre isso diariamente. Quando ele for a escola, lhe ajudarei a fazer traços de suas primeiras palavras e provavelmente isso me fará chorar, visto que palavras são parte de mim, assim como ele será. Permitirei que ele aprenda a seu tempo e serei grata a seus educadores. Valorizarei cada nova descoberta, nova sensação. Meu filho não saberá, mas eu saberei, que o conhecimento se dá pela liberdade. Tomarei cuidado para não o sufocar. Prezarei pela sua autonomia ao tempo certo. Aos poucos, lhe ensinarei sobre a importância de limpar o que suja, arrumar o que bagunça, fazer suas próprias escolhas. Quero levá-lo a uma horta, para que ele veja o alimento sendo plantado na terra, entenda a importância do trabalho de outras pessoas, e espero que assim, ele nunca desperdice comida ou desvalorize as pessoas. Lhe ensinarei que o mundo real não se encontra na tela de um tablet ou de uma televisão,mas sim sobre o privilégio de viver e poder ver o mundo com seus próprios olhos, tocar a terra com seus próprios pés.

Sei que meu filho não será perfeito. Ele me deixará algumas noites acordada, dará birra, me deixará com o coração na mão a cada febre ou cólica. Sei também que a medida em que ele crescer eu serei menos necessária, mas não desimportante. Quero dizer a meu filho todos os dias o quanto ele é único e especial. E o quanto somos especiais, a nossa maneira. Quero que ele seja diferente, e que saiba a importância de respeitar as diferenças, que leve o amor como sua maior virtude, que abrace e sorria a todos, que entenda que riqueza é ser, e não ter.

Hoje, ainda não sei se um dia ele (ou ela) virá. Mas sei que tenho me preparado para caso ele venha um dia. Eu me cerco de amor, luz e humanidade. Sou melhor que mim mesma todos os dias. Encontro a plenitude e a alegria nas coisas mais simples, e amo cada parte desta caminhada. Talvez ele nunca venha, mas se vier, eu desejo mais do que tudo, ter tudo aquilo de mais valioso que lhe darei: AMOR.

(Alyne Soares tem 24 anos, nunca engravidou, mas ajudou a criar quatro irmãs. Ama crianças, é quase pedagoga,e ainda está decidindo sobre ser mãe.)

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