Julho. (standing in the eye of the hurricane)

Julho foi um mês difícil, quase impossível. Morando sozinha há quase cinco anos, a saudade de casa sempre me acompanhou. Mas quando todo mundo volta para casa, o conceito de “lar” que eu havia construído novamente caiu por terra. Sozinha, a minha própria casa parecia me mastigar e engolir.

Quando tudo parece desmoronar, você quer voltar para casa. Para a sua verdadeira casa. Eu demorei para dormir quase todas as noites, desejando estar na minha antiga cama, em um quarto cheio, ouvindo histórias. Desejei o café da minha avó e o bolo da minha mãe. Desejei acordar cedo e ver minha cidade me abraçar como uma velha amiga.

Há treze anos luto contra mim mesma, numa guerra fria entre consultórios e remédios, lágrimas e vitória, dia após dia. Talvez um braço ou perna quebrada me seriam mais úteis, visto que podem ser remendados para funcionar novamente. Mas aquilo que cresce na alma, aquilo que atormenta seu coração e molha seus olhos, é tão mais dolorido. Passei a questionar tudo. De repente, a maioria dos seus amigos some. Amigas que até outro dia diziam te amar, e de repente te jogam na cara a tua “carência”, sem saber o porque ela existe e persiste. Amigas que te dizem, com ou sem palavras, o quão desnecessária você é. O abandono é talvez o pior dos efeitos, e eu achava que já tinha me acostumado. Não me acostumei.

Dentro do furacão, enquanto uns se vão, outros vem. Pequenos gestos e palavras assumem uma dimensão grandiosa. Se sentir querido e necessário ajudam a cicatrizar feridas.

Costumo pensar que até no pior dos momentos há um lado bom. Convivendo com algo que tenta me descaracterizar e me me roubar de mim mesma, descobri que quando o furacão vem, leva quem precisa ir, traz quem deseja vir, reafirma quem merece estar. São treze anos de furacão, despedidas e chegadas, e gente que permanece firme e forte ao meu lado. Quando penso em quem deve ou não estar na minha vida, geralmente eu me questiono: quem segurou minha mão quando o furacão passou? quem se machucou nos escombros para que eu não me machucasse mais? quem permanece comigo?

Sofro por aqueles que vão, mas sou grata pelos que vem, e sou grata pelos que ficam. Agora que o furacão parece ter atingido seu ápice, estou catando os pedaços e reconstruindo meu lar, aquele que tenho dentro de mim. Abraço agradecida a cada um que chegou, respiro aliviada ao ver cada um que permaneceu, e desejo que ninguém nunca abandone quem me abandonou.

Talvez pareça que faço drama e questão de dizer sobre o que sinto e passo. Mas dentro de tudo o que vivi e continuo vivendo, não há drama no simples ato de resistir firmemente a fúria dos furacões particulares. Sinto que não nasci poeta a toa, pois meu dom de dar sentido as palavras além daquele que elas possuem, é também um modo de ajudar quem vive seus primeiros furacões. Aprendi a me reerguer como quem foi quebrado, e a valorizar cada vez mais quem permanece. Há um segredo sobre se manter de pé no meio do olho do furacão: coragem. Nem todo mundo tem. Mas ainda bem, que comigo ela permanece.

(Alyne Soares luta há 13 anos contra a depressão, e não sente vergonha por isso)

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