Nem de rosto e nem de corpo.

Alyne Soares
Aug 23, 2017 · 4 min read

“Não seja brilhante, seja bonita”

Antes mesmo de eu me importar, fui obrigada a escutar o que os homens esperam de uma mulher. Diversas exigências me foram repetidas como um mantra, na esperança de que as absorvendo, eu me tornasse suficiente para atendê-las. Não são pequenas exigências, eu adianto.

"Seja delicada, engraçada, otimista. Seja feminina, perfumada e tenha postura. Seja compreensiva o tempo todo, cruze as pernas, demonstre elegância. Não engorde muito, cuide do seu lar. A casa de uma mulher é o reflexo dela "

Não tenho interesse nem estômago para repetir a diversidade de "conselhos" que me foram dados ao longo da vida, porque sim, desde meninas ouvimos este tipo de coisa. Enquanto os meninos brincam lá fora, as meninas escutam lá dentro.

Quando eu tinha 15 anos, pessoas do meu círculo social demonstravam preocupação por eu ainda não ter um namorado, mesmo com a permissão do meu pai para isso (sim, minha família é assim). Minha mãe sempre procurava rebatê-los ao dizer que minhas prioridades eram outras (eu tenho uma mãe forte e incrível, preciso dizer). Além da preocupação com minha sexualidade, havia a preocupação com o fato de eu estudar a maior parte do dia, ao invés de fazer as tarefas domésticas que um dia, segundo os “conselheiros”, me seriam utéis para cuidar do marido. Minha mãe prezou pela minha instrução acima de qualquer coisa. Como mãe de cinco garotas, ela entendeu o papel emancipador que deveria ter e o executou com maestria. Leitura de toda literatura possível e disponível, disciplina com as atividades escolares, investimento pesado dentro do que a realidade nos permitia. Minha mãe nunca quis que eu aprendesse a bordar; uma vez por semestre colocavámos nossos melhores vestidos e íamos a reunião da academia de letras, onde eu conheci mulheres que me inspiraram a ser a pessoa que estou me tornando. Nenhuma delas me inspirou tanto quanto minha mãe, devo dizer.

Aos 17, passei em um concurso público na primeira colocação. Ao chegar para tomar posse (um dia depois de completar 18 anos), me foi proposto que deixasse o cargo de chefia (que conquistei através da primeira colocação), para um homem, porque o trabalho era pesado e exigia experiência, que na cabeça deles, só um homem poderia ter. Neguei veementemente e assumi a função.

Poderia contar muitas histórias sobre como cheguei até aqui, escrevendo este texto em uma madrugada abafada, sentada na cozinha de casa, depois de horas de estudo para o meu TCC. Mas esta história não é sobre a minha história. É sobre como a sociedade não cansa de nos cuspir exigências.

Reafirmo uma coisa que aprendi há muitos anos: o mundo gira ao redor dos homens. Por mais que tenhamos avançado, por mais que estejamos trabalhando duro pela igualdade, o mundo ainda gira em torno deles, e acima de tudo, do que eles querem. Conheço mulheres brilhantes, com um lattes extenso, cursos fora do país, poliglotas e independentes, mas que ainda sofrem a pressão de estarem solteiras. Tenho uma amiga que se formou com muita luta, foi a primeira de sua família a ter um curso superior, encheu seus pais de orgulho, conseguiu um ótimo emprego, mas tem perdido noites de sono imaginando quando seu namorado vai pedir sua mão. Uma colega de infância se casou em uma linda cerimônia, realizou o sonho da casa própria, comprou um excelente carro, passou no mestrado, mas teve que ouvir da família do marido que precisava engravidar logo. Outra tentou engravidar por um ano, sem sucesso. Entrou em depressão por não corresponder as expectativas do marido, sua fertilidade passou a ser questionada abertamente, foi vítima de olhares de pena e revolta. Quando decidiu partir para o tratamento, descobriu-se que na verdade o problema de fertilidade não era com ela. Mas aí a coisa mudou de figura. Ninguém julga um homem por ser infértil.

Eu entendi que as exigências não tem fim.

Você pode ser uma profissional de sucesso, mas se estiver desarrumada será julgada pela sua aparência. Você pode ter mais títulos que todos os seus amigos homens, mas a conversa sempre será sobre sua vida amorosa. E sabe aquele cara que você acha que não se importa com nada disso? Esqueça, ele se importa. No final, não importa o quão brilhante você seja, ele irá aparecer com a garota da academia e das unhas postiças.

Graças aos inúmeros conselhos que recebi, aprendi a dá-los também:

Seja brilhante para você mesma. Seja uma excelente profissional por você. Se quiser ser uma musa fitness, faça por você. Se desejar andar vestida como quem acabou de acordar, tudo bem também. Eu sei, parece aquele discurso midiático empoderador de marca de shampoo, mas é a pura verdade. Não viva para cumprir exigências, papel social, “o que se espera de uma mulher”.

Seja brilhante. A melhor, por você mesma. Por todas as outras garotas que tem tentado fugir das exigências, das amarras e correntes invisiveis que lançam sobre nós. Maior que o padrão, maior que o patriarcado. A incrível, imbatível e tão esperada geração de mulheres que são tudo o que um homem não quer.

E o melhor, isso não faz diferença pra nós.

(Alyne Soares tem 25 anos, se veste como quem acabou de acordar e odeia unhas postiças)

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    Alyne Soares

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    brasileira,escritora. sonhadora incurável, irritantemente alegre; que adora café, gente, poesia, chuva e livros. mais conhecida como Aly.

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