Deep Web — nas profundezas da internet

É provável que a maioria das pessoas não conheça, ou então nunca tenha visitado a “profundeza da internet”, a tal da “Deep Web”.

Tal lugar tão desconhecido provoca narrativas das mais variadas. Sites inteiros dedicados à pedofilia; redes criptografadas para contrato de assassinos de aluguel; comércio de armas e compra de programas para baixar e fazer pistolas totalmente funcionais em impressoras 3D; tráfico intenso e quase totalmente seguro de drogas, das mais leves às mais pesadas… Tudo o que rola neste mercado negro da web, a “darknet”, faz das profundezas da internet um lugar destemido, porém globalizado e atraente para diversos tipos de público.

O documentário “Deep Web” explora uma fração do que seja esta rede de enorme alcance e privacidade. O foco, porém, é sobre Ross Ulbricht, um jovem empreendedor que, após dois anos de intensas investigações, foi condenado à prisão perpétua por ser o fundador do vasto mercado de drogas online, o Silk Road (nome inspirado na Rota da Seda, que formava a maior rede comercial do mundo antigo). A principal cartada contra Ross foi sua associação à mente por trás do Silk Road, um personagem anônimo chamado Dread Pirate Roberts, um pirata de um filme americano que em nossa cultura novelística mais se assemelha, esteticamente, ao Zorro. A associação a esse personagem, porém, não é sem motivo: durante o curso de sua história, Roberts não é um homem, mas uma série de indivíduos que passam o nome e a reputação para um sucessor escolhido uma vez que são ricos o suficiente para se aposentar. E essa associação dá uma boa pista para a ideia de que Ross tenha sido o fundador da Silk Road, porém não tenha qualquer vínculo objetivo com os crimes que o Estado alega que Ross tenha cometido, incluindo assassinatos (como se este jovem de 29 anos fosse uma espécie de líder de cartel de drogas).

O sucesso de Ross foi unir a tecnologia blockchain — uma estrutura de dados que registra transações, sem a necessidade de uma autoridade central para definir quais transações são válidas ou não — com a tecnologia de acesso anônimo Tor — um navegador tal como Google Chrome e Mozilla Firefox, porém muito mais seguro em termos de privacidade — , consolidando assim seu mercado negro, não-rastreável por bancos nem por governos, onde trocas são feitas livremente. Em resumo, a utilização de bitcoins (moedas virtuais baseadas em blockchain) casou perfeitamente com o anonimato exigido para um bom tráfico online, onde você compra o que quiser, quando quiser e sem precisar dar satisfação a ninguém — nem a seu governo, o que te faz não ter de pagar impostos, por exemplo.

Obviamente, tamanha ousadia só podia significar, para as autoridades, um cuspe descarado na palavra da lei. Toda uma mobilização foi articulada para acabar com a Silk Road, o que ocorre sem sucesso até hoje, pois o FBI já detonou algumas vezes o site, mas o site continua sempre retornando.

O feito de Ross não apenas é de um alcance internacional; antes, é a própria tentativa de consolidar um sonho libertário: a utopia anarcocapitalista, onde o livre comércio e a moral independem da vigilância do Estado. Porém, como se é esperado, dificilmente um inimigo do Estado terá sucesso. Ross é apenas mais um que o tempo considerará ou como um violador da lei, ou como um verdadeiro mártir de uma causa plenamente alcançável em nossa sociedade.

O documentário “Deep Web” está disponível na Netflix, ou no navegador Tor mais próximo de você.