No Brasil, impera a conveniência

Há muitas coisas me incomodando ultimamente. Estou no litoral, e ontem, aqui perto, houve um acidente de carro horrível, que resultou em algumas mortes. Saiu nos noticiários, como de costume (quando o sensacionalismo é natural, é sempre bem-vindo), e me vi pensando sobre a necessidade de haver avaliações regulares e anuais quanto a motoristas.

Mas o fato é que, no Brasil, fiscalizações de trânsito só são uma prioridade quando geram algum lucro para seus fiscais e superiores.

Ainda me mantendo atento quanto a algumas tragédias, me vi assistindo a alguns eventos também preocupantes, relacionados à segurança pública. Tristemente, vi relatos de assaltos tranquilos, em que assaltantes demonstravam pouca ou nenhuma preocupação quanto aos seus atos, sequer tendo pressa para cometerem seus crimes. Num desses casos, o assaltante demonstrou-se gentil, educado, agradecendo suas vítimas e dizendo para ficarem com Deus após o assalto. Se foi sarcasmo ou uma empatia estranha mesclada a um desespero por ganhar a vida, difícil saber.

A verdade é que, ainda no Brasil, há uma certa sensação de impunidade não só para as vítimas, mas também para aqueles que escolhem agir como agem — desde o pequeno ao grande criminoso.

Assistindo ao noticiário, me vi um tanto despreocupado com esses relatos. Seria eu um egoísta que não dá a mínima para a desgraça alheia, ou apenas mais alguém que entende que as coisas são tão complexas a ponto de saber que rebaixar sua percepção sobre esses fatos do mundo a um sentimentalismo simplista seria o verdadeiro absurdo? Bem, isso não importa, pois uma, duas ou três tragédias ainda continuam sendo detalhes em nossa sociedade.

Afinal, no Brasil, a política é fortemente movimentada por populismo e sentimentalismo baratos, com excesso de demagogia e apelo à ignorância, os quais pavimentam todas as estradas para o sucesso neste jogo fajuto chamado “democracia representativa”. E se entendemos isso devemos saber que não é a raiva, a ira e a indignação que farão a diferença (são elas que mantém as coisas como são), mas a compaixão, o discernimento e a argumentação coerente frente a uma realidade complexa.

Resolvi desligar a televisão. Vi que estar atento quanto às desgraças não passa de um ato passivo, uma atitude discreta de massagear o próprio ego ao pensar que não estamos fazendo parte disso e, pior de tudo, um auto-cultivo de sentimentos ruins quanto à realidade das coisas.

É que, no Brasil, não é um dever televisivo dispor ao seu público notícias quanto aos avanços científicos, fatos sobre as conquistas de importantes ONGs ao redor do mundo e estimular os telespectadores a serem o melhor de si mesmos, trazendo exemplos do que há de melhor no ser humano. Aqui mais nos importa a polêmica, o sensacionalismo de boteco, a “zuera” e o linchamento moral sobre os bodes expiatórios que julgamos criminosos.

Aqui o importante é, ao fim das contas, fingir importância, e relativizar ideias, ações e pessoas de forma que caibam em nossas conveniências. Pois nada mais faz jus à preguiçosa natureza humana do que direcionar todos os seus problemas de acordo com a conveniência.