O desprestígio da academia brasileira

You have to learn Portuguese.

Poucas coisas são tão importantes para o progresso civilizatório da humanidade quanto a formação de mentes pensantes capazes de detectar, com propriedade, nossos problemas e, mais importante, propor soluções.

O abstract (resumo de um trabalho escrito em língua inglesa) ao lado provém de uma dissertação de mestrado¹ da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF — MG), cujo título é “Uma educação esquizita. Uma formação bricoleur processo ético e estético e político e econômico” (sic), que conferiu ao autor, Tarcísio Meira Mendes, o título de Mestre em Educação.

Durante a exposição de seu trabalho, que contém nada menos que 229 páginas, podemos ver que diversas delas contêm fotos de trabalhos escritos à mão, sem qualquer sentido explícito do porquê estão lá, postas de modo aleatório, sem numeração e indicação de seu significado e propriedades. Em certo momento, na página 60 (sim, 59 páginas corridas para chegarmos até aqui), finalmente encontramos alguma ordem em seu trabalho, onde Tarcísio passa a argumentar de um modo coerente e expositivo suas ideias, embora com um conteúdo fraco para a qualidade exigida em um mestrado. Na página 67, porém, essa aparente seriedade acaba, com referências bibliográficas que não fazem sentido estarem lá. Sua escrita continua, desta vez em outros formatos, admitindo inclusive fonte Comic Sans em itálico no corpo do texto.

Não quero me estender sobre a forma do trabalho, apenas digo que são tantos detalhes que saltam aos olhos, que acabamos nos afastando de levar sua dissertação a sério, e a tomamos como algo simplesmente risível.

Algumas pessoas argumentaram em favor do trabalho, dizendo que sua abordagem parte de uma teoria proposta pelo filósofo Gilles Deleuze e o psicanalista Félix Guattari, a “esquizoanálise”, que focaria em uma crítica ao modelo psicanalítico reducionista, por aprisionar o que é produzido pelo inconsciente a um drama edípico.

Vi serem levantadas diversas razões para que vejamos valor nesse tipo de produção acadêmica, estando algumas pessoas realmente preocupadas em dar crédito ao “diferente/desviante”. O que não vi, porém, foi no próprio trabalho haver alguma justificação digna de nota, que comprove e justifique uma abordagem tão diferenciada e escrachada.

Afinal, qual o propósito desse trabalho, qual sua intenção, seu objetivo acadêmico, e por que ele é suficientemente relevante para contemplar seu autor com um título de Mestre em Educação? A visão do público leigo, aliás, não importa? Não seria excesso de academicismo se permitir ao escracho de uma linguagem mal compreendida por pares, sequer então por público em geral? Qual o valor ético, político e econômico, como o trabalho se propõe a ter, ao oferecer um trabalho por meio de uma performance onde mostra-se as nádegas e bolas do sujeito numa banca de mestrado?² O que os pares acham basta para o valor de uma pesquisa, ou é preferível que os pares, em especial o próprio autor da dissertação, prestem satisfações à sociedade quando ela se vê injustiçada ao ter de pagar por um trabalho que não explicita suas intenções, seus objetivos e qual sua ideia central, sendo que a principal tarefa de qualquer trabalho acadêmico é comunicar descobertas derivadas de pesquisas, e não fazer show de horrores?

De fato, não sou da área. Não tenho doutorado em educação para julgar alguém agora qualificado como Mestre em Educação. Ainda assim, além das odes contra a ciência explícitas na dissertação de Tarcísio, que foi financiada pela CAPES com nossos impostos, nada mais justo que cobremos explicações sobre o valor que há nesse tipo de trabalho, por que ele é importante e, especialmente, por que ele não teria um saldo muito mais negativo para a própria área de humanidades do que positivo, uma vez que é justamente o tipo de coisa que pulula nas mídias e descredibiliza as ciências humanas, cada vez mais desprezadas justamente por relativizar valores e seguir comumente a lógica do “tudo vale”.

1 — Dissertação de Mestrado: https://repositorio.ufjf.br/jspui/handle/ufjf/231

2 — Defesa da tese de mestrado desse trabalho. Assista por sua conta e risco:


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