Fotografia: Luneta para o pensamento artístico

Quando Galileu Galilei, em 1609, observou o céu pela primeira vez através de uma luneta, ele estava realizando o primeiro passo na descoberta desse outro lugar, por meio de um instrumento que alterava a percepção desse espaço, para que o seu olhar conseguisse capturar, compreender, observar essa nova dimensão.

Passado alguns séculos, com a invenção da fotografia em século XIX, começamos a observar esses outros lugares com a capacidade tecnológica de registrá-los, em forma de imagens. E a partir desse horizonte, conseguimos a oportunidade de escolhemos qual o fragmento do tempo/espaço que queremos materializar em uma fotografia.

Alysson Camargo, mapa de ressentimentos, fotografia, 2016.

Com essa autonomia e em posse de uma câmera fotográfica, o fotógrafo antigo, moderno e o contemporâneo, tiveram acesso a uma nova forma de olhar o mundo e de selecionar qual fragmento ele deseja transformar em uma imagem, paralisando-a em um suporte físico ou digital.

A fotografia nasceu como uma grande ferramenta de registro documental, porém, amadureceu como linguagem artística e estética, por sua incapacidade de ser realidade e por conter muitas características ficcionais em sua estrutura, o que ofereceu a artistas como Jeff Wall, Cindy Sherman, Geraldo de Barros, Marcelo Feijó e Rosângela Rennó, o instrumento artístico para a reflexão estética, e a partir dessa linguagem o desenvolvimento da construção de um discurso que rompe com as fronteiras artísticas, dialogando com outras disciplinas como a antropologia, filosofia e a história.

Alysson Camargo, rastros pregados, fotografia, 2016.

Aprofundando nessa fotografia como luneta para o pensamento artístico, observo que o campo de conhecimento da arte, tem características especificas de análise e de pesquisa, porém como outros campos, trabalha de forma flexível e transversal, apropriando de conhecimentos de outras disciplinas para sua utópica síntese final. Esse lugar da arte de difícil definição, contextualiza o lugar de observação do fotógrafo artístico no mundo.

Compreendendo que esse lugar da arte e do fotógrafo não é fixo, ampliamos nossa concepção desse lugar imaginativo, deslocando-o conforme o olhar é fisgado pela visão do que se olha.

O fotógrafo por outro lado, pela sua sensibilidade artística, desenvolve através dos anos de prática e pela sua bagagem cultural, uma espécie de personalidade, estilo e percepção visual, e a partir desse momento, a sua relação com o mundo através da fotografia transforma sua experiência real enquanto ser, em uma experiência de descoberta de outros novos lugares, assim como Galileu Galilei por meio de sua luneta no momento em que redescobriu o céu.

Alysson Camargo, camadas de lembranças, fotografia, 2016.

A relação entre máquina fotográfica e construção desse olhar artístico não é desenvolvida somente quando o fotógrafo está olhando para outro lugar, a própria experiência de olhar, pensar, redescobrir através da luneta imaginativa, transforma o fotógrafo em um novo observador do mundo onde se vive, trabalha, estuda.

Esse olhar é construído dentro de sua relação com a fotografia, ela estimula-o a desenvolver a sua capacidade de olhar, ver, observar sempre através da luneta invisível, como se ela sempre estivesse entre os seus olhos e o espaço que se olha. A forma como ele se relaciona com o mundo se torna visual, seus pensamentos, sua forma de falar e agir.

O seu olhar ganha características visualmente aprofundadas, como a capacidade de tatear ou sentir a textura dos objetos, lugares e ações através do olhar, a prática de paralisar momentos do seu dia, como fotografias imaginárias, editando e flexionando essa realidade em milhares de possibilidades imagéticas e fotográficas.

Diante dessa contextualização sobre o lugar da arte como ponto móvel, do fotógrafo artista como ser capaz de compreender o mundo a partir da fotografia, utilizarei de dois trabalhos realizado por mim em um laboratorial experimental artístico para investigar essa relação entre o olhar, por meio da fotografia na construção do pensamento artístico.

Os trabalhos estão divididos em dois eixos temáticos, “a parede como lugar de resgate de memórias coletivas” e “o canto como lugar de refúgio”.

O primeiro trabalho, nasceu a partir do obra Imemorial (1994), de Rosângela Rennó, o trabalho “a parede como lugar de resgate de memórias coletivas” foi pensando diante do espaço de memória, com o foco em lugares coletivos, esses trazem sempre muitas camadas de lembranças e de passagens, o objetivo desse registro fotográfico foi a materialização do fragmento do tempo no espaço, entre a última camada que ainda reside, e a nova camada de fatos que será colocada em breve, se tornando memória.

Alysson Camargo, paredão das humanidades, 2016.

O trabalho foi realizado no Instituto Central de Ciências, um prédio desenhado por Oscar Niemeyer, com 696 metros de extensão, ao longo do prédio existe uma série de murais informativos, dispostos nas paredes do prédio, esses murais sempre cheios de informações sobre eventos, palestras, debates. Essas amontoam-se no decorrer do semestre letivo, porém, de tempos em tempos, uma limpeza é realizada, e muitos resíduos dessas mensagens são mantidos.

A tentativa fotográfica de resgatar memórias coletivas através desses resíduos foi feita, não com o objetivo de descobrir quais informações foram retiradas, mas, quais memórias esses resíduos guardam, e com o passar do tempo, nesse exercício de colocar novas informações e depois retirar o excesso físico delas, deixam marcas permanentes no espaço, o meu olhar enquanto fotógrafo foi o de resgatar esses resíduos, registrando o fragmento do tempo entre o passado de memórias e as novas camadas de fatos, experiências e eventos do futuro que hão de vir.

Na fotografia abaixo, “E o vento não levou”, uma fotografia representativa do fragmento do tempo que por ali deixou suas pegadas. Esse bilhete, papel, ou rascunho, que por uma série de motivos, ali ficou e como o vento não conseguiu arrastá-lo para outros lugares, por estar dentro da parede, fixou-se ali, não sabemos se ainda está ou até quando ficará, porém, o registro fotográfico documenta sua passagem, naquele determinado dia e lugar, o fotógrafo, neste momento é o ser capaz de avistar essa rápida passagem do tempo e pela fotografia, agarrará em sua câmera em uma briga contra a efemeridade em relação a permanência.

Alysson Camargo, e o vento não levou, fotografia, 2016.

O segundo trabalho, “o canto, lugar de refúgio”, articula a capacidade de criação de um espaço invisível, enquanto olhar fotográfico, como se estivéssemos observando a cena retratada por meio de um buraco na parece, uma cena que não deveríamos estar olhando.

Esse canto, em que muitas pessoas conhecem, o espaço do refúgio, da busca pelo alívio momentâneo, da tentativa do respirar tranquilamente ou da sensação do vazio, isolamento e melancolia. Esse lugar alienado do retratado é exposto na fotografia como lugar de identificação, repulsa ou indiferença, torna-se esse retratado, a representação mimética de um lugar universal, que todos os seres humanos podem apropriar-se e tornar seu.

Alysson Camargo, intimidade, fotografia, 2016.

Espaço que carrega o paradoxo entre o íntimo privado, do momento extremamente vulnerável e o público tornado em fotografia. Essa relação ampla que o fotógrafo consegue criar a partir de uma fotografia, transforma ela em uma ferramenta de investigação de pequenas fissuras das relações entre sentimentos, emoções e sensações, com o aparato conceitual, técnico e estético que cada fotógrafo tem em seu olhar.

Alysson Camargo, o canto lugar de refúgio, fotografia, 2016.

A fim de compreendermos a relação entre fotografado, fotógrafo e olhar, devemos refletir que quando olhamos o mundo a partir da fotografia, criamos uma nova percepção deste, uma nova forma de entender os objetos, ver as formas, as cores em uma dinâmica estética, que vai muito além do momento em que estamos fotografando ou registrando um momento ou acontecimento.

Alysson Camargo, resistência e presença, fotografia, 2016.

Quando pensamos sobre o olhar do fotógrafo, imaginamos o momento em que ele está fotografando, porém, esse olhar é uma construção contínua, sensível e com base em sua bagagem cultural, a luneta aqui é a metáfora para essa capacidade visual de transformação da percepção do espaço a partir desse olhar.

A nossa luneta invisível sempre estará presente e estaremos olhando por meio dela para o mundo a nossa volta, em um privilégio prazeroso de viver fotografando através das lentes imaginativas de nossas mentes.

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