Gabriel Pérez Barreiro: quem é o curador da 33º Bienal de São Paulo — 2018

Em um momento de crises políticas, econômicas e ideológicas, além da descrença em modelos tradicionais de reflexão sobre arte, a construção de outras formas de lidar com esses desafios, dificuldades e avanços é necessária! Pensar em alternativas curatoriais que apresentem uma terceira via com possibilidades mais imediatas.

Gabriel Pérez Barreiro pensa exatamente sobre isso, por meio de seus trabalhos ele propõem repensarmos a nossa relação com a arte, o circuito artístico e a curadoria em um campo ampliado muito além do modelo curador-autor que seleciona um conjunto de obras, artistas e instrumentos de mediação submisso à uma temática.

Barreiro é espanhol e especialista em Arte Latino Americana atualmente é diretor da coleção Patricia Phelps de Cisneros, esses três pontos contextualizam muito bem onde estão as bases para o seu discurso curatorial.

A coleção Patricia Phelps de Cisneros tem como missão melhorar a educação em toda a América Latina e promover a consciência global do patrimônio da região.

Outro dado importante, quando trabalhamos durante algum tempo em alguma empresa, organização ou instituição acabamos compartilhando os valores deste lugar, e Gabriel Barreiro representa a coleção em muitas reuniões, eventos e exposições.

Lá do continente europeu Barreiro fez seu Mestrado e Doutorado em Londres sobre estudos Latino Americanos passando por NY e Caracas pela coleção Cisneros, Gabriel Barreiro criou vínculos institucionais importantes aqui com o lado Sul Americano, como quando integrou o conselho da Fundação Iberê Camargo.

Mário Pedrosa, imagem de arquivo. Fotografia, 1960.

A sua mais recente exposição “Da Natureza Afetiva da Forma” para o Museu Reina Sofía sobre o crítico brasileiro Mário Pedrosa (1900–1981) apresenta 200 trabalhos de 41 artistas.

Nas palavras do curador Mário Pedrosa foi um dos pilares do pensamento crítico sobre as vanguardas que floresceram no Brasil, Pedrosa foi um escritor e intelectual de interesses múltiplos, tendo defendido não só a abstração geométrica mais radical dos neoconcretistas como Hélio Oiticica e Lygia Clark, mas também tendo estudado a fundo a arte de internos de hospitais psiquiátricos e artistas ditos naïf, ou populares, como Djanira. (Gabriel Barreiro tem grande admiração por Mário Pedrosa).

Mário Pedrosa. De la naturaleza afectiva de la forma, 2017.

Nessa teia de relações globais e a partir de sua ligação estrutural com a América Latina, Barreiro é convidado para ser curador da 6 Bienal do Mercosul em 2007, nada mais coerente em um momento em que a Bienal estava passando por uma reestruturação.

Criada em 1996 como uma alternativa a Bienal de São Paulo, o então primeiro curador Frederico Morais assumiu o desafio de estruturar uma história da Arte Latino Americana alternativa e não-eurocêntrica, descrevendo os eixos ideológicos dos países constituintes do bloco econômico (Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai), além de países convidados, com o passar dos anos o ideal de um discurso harmônico mesmo que heterogênico foi se desfazendo, o Brasil com seus artistas e curadores foram ocupando o espaço de forma majoritária.

Porém o desafio está justamente em desenvolver um discurso democrático e inclusivo entre os países latino americanos respeitando as particularidades e as diferenças sem uniformizar os artistas e as obras dentro de uma via única.

Bom, aí chegamos na 6º Bienal do Mercosul de fato em 2007. Gabriel Barreiro recebeu esse contexto histórico das últimas exposições para a partir dele propor um novo modelo curatorial e geográfico, não sendo um curador brasileiro o intercâmbio geográfico mundial facilitou o seu trabalho nesse momento.

Gabriel Barreiro foi buscar inspiração em Guimarães Rosa para a terceira via para seu pensamento curatorial. Em “A terceira margem do Rio” o personagem decide viver em um barco no meio do rio, criando uma terceira margem, a metáfora utilizada por Gabriel Barreiro cria um espaço entre a atual polarização dos conceitos como:

Esquerda e direita, global e local, certo e errado, o novo e o antigo e principalmente entre as Bienais com enfoque regional e as internacionais.

Gabriel Barreiro perfura um espaço intermediário de “entre” como se estivesse aproximando polos opostos e refletindo sobre as possíveis semelhanças pela via do afeto, esse foi o conceito curatorial para a 6º Bienal do Mercosul e a partir dessa experiência é convidado para pensar em outro modelo curatorial para a 33º Bienal de São Paulo de 2018.

Para a Bienal de São Paulo sua bússola está direcionada na desestruturação em nome do afeto, repensando o modelo de grande exposição coletiva de arte contemporânea e em muitas entrevistas concedidas o curador deixa esclarecido algumas premissas, tais como:

“Não acredito na estrutura de um curador decidindo um tema e procurando artistas para depois ilustrar esse tema. Essa coisa de uma grande exposição coletiva me lembra um supermercado ou um zoológico. Estou interessado no afeto que é algo que atravessa toda manifestação artística”

Andreas Gursky, Supermarket, 2001.

Esse mesmo afeto que o curador cita, vem da experiência da Bienal do Mercosul em programas realizados, tais como:

Conversas no qual um artista do Mercosul convida outros artistas com base em afinidades e não aspectos geográficos.

Três Fronteiras, no qual artistas internacionais foram trazidos para a tríplice fronteira (Argentina, Paraguai e Brasil) para refletir sobre a complexibilidade das relações entre os três países.

A expectativa criada sobre o curador no sentido de oxigenar o modelo bienal tem suas bases sólidas na Bienal do Mercosul, modelo que também contou com um excepcional projeto de mediação desenvolvido em parceria com o artista e educador Luis Camnitzer baseado em dois eixos:

o primeiro, considerar o visitante da Bienal como um criador em potencial, carregado de conteúdo e não um receptáculo vazio a ser preenchido de informação

e o segundo eixo é o que as obras de arte são canais de comunicação a serem compreendidos ativamente ao invés de serem recebidos de forma passiva.

Escultura-viva “Divisor” Lygia Pape. 2017.

Enfim, Gabriel de fato cria essa terceira margem entre as intenções criadas pelas obras e o conteúdo trazido pelo espectador na experiência de contato entre os dois.